30/09/2013 20:22

A primeira edição deste livro foi publicada em 1990, dez anos após o autor Stephen Rebello ter entrevistado o diretor Alfred Hitchcock – entrevista que, fatalmente, seria a última do diretor, falecido em 29 de abril de 1980. “Alfred Hitchcock e os Bastidores de Psicose” retorna aos holofotes após ter originado o filme “Hitchcock” (2012), dirigido por Sacha Gervasi e estrelado por Anthony Hopkins e Helen Mirren, sendo finalmente lançado no Brasil em 2013 pela Editora Intrínseca.

O livro não é uma narrativa romanceada dos bastidores da filmagem do filme “Psicose” (1960), mas um documentário construído a partir de entrevistas (além do diretor, outras pessoas envolvidas foram entrevistadas), arquivo pessoal e documentação de Hitchcock e outras publicações. Resultado de ampla pesquisa, mas escrito por alguém que nunca esteve presente nos bastidores citados no seu título.

Stephen Rebello conta como nasceu o filme, desde o objetivo de Hitchcock em realizar uma obra econômica, buscando recursos de sua série televisiva “Alfred Hitchcock Presents”, passando pela escolha do roteirista e do elenco, pela filmagem, pela pós-produção e até pelas estratégias de divulgação e como “Psicose” foi recebido pela crítica e público.

Rebello foge do caminho fácil da exaltação à genialidade do diretor, preferindo polemizar, mas sem definir um posicionamento pessoal, sobre alguns aspectos controversos. Por exemplo, a contenda sobre a autoria de certas cenas, em especial, a do clássico assassinato no chuveiro, aparece em algumas frases colhidas pelo escritor em entrevistas com Saul Bass, e algumas opiniões de colaboradores de Hitchcock. Porém, sente-se um vazio por não contrapor uma declaração do próprio diretor sobre o assunto. Trechos com questões como essa, que são levantadas, mas não concluídas, provocam no leitor a angústia desagradável de não encontrar uma resposta. Leia um excerto abaixo.

“(Anthony) Perkins ouviu e leu a reivindicação de Saul Bass. “Estabelecer a cena tomada por tomada e filmá-la são dois mundos diferentes. Ele [Bass] pode tê-la desenhado tomada por tomada, mas não estava no set. Bem, eu também não estava, mas foi o que Hilton [Green] me disse. (…)”

O assistente de direção Hilton Green caracteriza qualquer questionamento sobre a autoria da cena como “ridículo”. “Eu li [a afirmação de Bass] em algum lugar, e isso realmente me incomoda. É absolutamente ridículo. Hitchcock estava lá cada segundo do tempo, não vou nem dizer ‘minuto’. (…)”

Saul Bass fez a seguinte observação sobre a polêmica a respeito de quem dirigiu a cena do chuveiro. “A pergunta que interessa é: por que então eu recebi o crédito de ‘consultor visual especial’? Não foi pelos títulos de abertura. Tinha que haver mais. Um grande artista faz um filme e pede a esse jovem que venha e faça algumas coisas [nele]. E a surpresa é que, quando o filme é comentado, são aquelas sequências em que o garoto trabalhou que chamam a atenção. É um pouco incômodo. (…)”

Deixando de lado as questões polêmicas não resolvidas, o livro cumpre seu papel informativo. Minucioso, Rebello conta a construção dessa obra prima do cinema passo-a-passo, revelando os motivos para cada cena importante ter surgido na tela da forma como ficou na versão final. Descobrimos por que Hitchcock utilizou projeções de imagens ao fundo na cena da fuga da personagem de Janet Leigh. E como ele conseguiu aquele efeito horripilante quando encontram o cadáver da mãe de Norman Bates. Até mesmo o motivo de os azulejos do banheiro do motel serem tão brancos. Enfim, as deliciosas particularidades de um dos filmes mais assustadores de todos os tempos.

No final, o escritor e roteirista Stephen Rebello ainda coloca um divertido capítulo sobre o que aconteceu com cada uma das pessoas que criaram “Psicose”.

Alfred Hitchcock e os Bastidores de Psicose (Alfred Hitchcock and the Making of Psycho. Editora Intrínseca, Rio de Janeiro, 2013). Tradução: Rogério Durst.