O Estranho Que Nós Amamos (The Beguiled, 2017)

Avaliação:
7/10
7

Informações

Crítica

ESTREIA: O Estranho Que Nós Amamos (The Beguiled, 2017) EUA, 91 min. Dir/Rot: Sofia Coppola. Com Elle Fanning, Nicole Kidman, Kirsten Dunst, Colin Farrell, Angourie Rice, Oona Laurence, Addison Riecke, Emma Howard.

Universal Pictures

 

Sofia Coppola dirige sua releitura do filme “O Estranho Que Nós Amamos” (The Beguiled, 1971), de Don Siegel, que trazia Clint Eastwood no papel do soldado ianque encontrado por um grupo de mulheres na Virginia, sul dos Estados Unidos, na época da Guerra Civil.

O personagem Cabo John McBurney agora é interpretado por Colin Farrell.  A perna ferida por tiros o deixa deitado na floresta até ser encontrado por uma das alunas do instituto de Miss Martha (Nicole Kidman), para onde é levado e acolhido para ser salvo. A presença de um homem num local onde vivem sete mulheres, incluindo crianças, quebra o equilíbrio do local, trazendo à tona carências até então reprimidas devido à ausência de uma figura masculina no local. Miss Martha fica dividida entre suas responsabilidades como cristã e como responsável pelo instituto educacional, e o desejo de reviver o prazer do sexo, sublimado há anos. A romântica professora Edwina (Kirsten Dunst) está vulnerável para se apaixonar pelo primeiro homem que conhecer para logo contrair matrimônio. As duas adolescentes veem McBurney como uma novidade curiosa e a mais velha, Alicia (Elle Fanning) não esconde sua sexualidade latente e se insinua sem pudor para o visitante. As demais meninas mais novas buscam nele a figura paterna ausente na vida delas. Por sua vez, McBurney parece apreciar ser o centro das atrações. Até que os conflitos explodem e provocam reações violentas de todos.

A diretora Sofia Coppola leva para as telas um clima fantasmagórico para a estória, com neblinas saindo da mata e uma mansão extremamente branca que abriga o instituto das moças. É recorrente a cena que enquadra a mansão com grandes colunas vista de lado rodeada pela mata, como se fosse um útero gestando vidas ainda incompletas, em formação. Esse simbolismo com órgãos femininos fica mais evidente no início do filme, quando mostra um caminho rodeado por árvores que formam um canal equivalente ao interior de uma vagina. É um prenúncio do universo feminino que o personagem masculino adentrará em breve.

Entre as personagens, aquela interpretada por Kirsten Dunst é a que ganha maior profundidade. Ela se sente fortemente atraída por McBurney, não só sexualmente, mas amorosamente. Sua criação tradicional pressupõe o objetivo romântico do casamento. Em um belo enquadramento, Edwina está no centro superior do quadro, e abaixo dela a câmera está perto do solo, mostrando o quanto ela tem os pés no chão com seu conservadorismo. Porém, à beira da partida forçada do soldado, ela se entrega a ele. E se transforma em outra mulher, muito mais confiante, quando desce com ele para o jantar de despedida. Afinal, ela sente que foi a única que conseguiu efetivamente transar com o homem que está na casa.

“O Estranho Que Nós Amamos” ocupa a sua primeira metade com esses jogos de sedução, intrigas e disputas. Mas o filme cresce mesmo a partir do momento em que a perna de McBurney precisa ser amputada, pelo menos segundo o julgamento de Miss Martha. Ao enterrarem a perna amputada, a trilha sonora logo indica o clima sombrio que predominará a partir de então. Esse ato representa o plantio do mal que dominará todos os personagens, dando um novo ritmo ao tom agora de suspense da estória.

O desfecho do filme deixa claro que o mal ficou para fora dos portões do instituto de Miss Martha, e o equilíbrio do grupo interno foi restabelecido, tendo Miss Martha sozinha do lado esquerdo de uma das grades do portão, e o restante das mulheres do lado direito.

A perna amputada traz à lembrança uma cena antológica envolvendo o então ator Ronald Reagan, surpreso por não ter mais suas pernas, em “Em Cada Coração Um Pecado” (Kings Row, 1942), um dos dramas mais tristes que Hollywood já realizou.

Sofia Coppola mostra nesse filme uma nova parceria com a atriz Kirsten Dunst, com quem já trabalhou em “As Virgens Suicidas” (The Virgin Suicides, 1999) e “Maria Antonieta” (Marie Antoinette, 2006). Convoca também uma atriz que trabalhou com seu pai Francis Ford Coppola, Elle Fanning, em outro drama misterioso de época, “Virgínia” (Twixt, 2011), curiosamente esse título é o local onde se passa “O Estranho Que Nós Amamos”.

O filme peca ao mostrar detalhes gratuitos do tratamento do ferimento na perna de McBurney, inconsistente com a estrutura narrativa do filme, que passa a ganhar tons sombrios somente na sua metade final. Mesmo assim, vale a pena ver “O Estanho Que Nós Amamos”.

Por Eduardo Kaneco

 

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