O filme 1978 parte de uma instigante premissa política, mas não tem coragem de explorar as possibilidades que ela abre. A mais promissora delas seria proporcionar o prazer de apreciar na tela da ficção torturadores da ditadura sofrendo seu merecido castigo em vida.
Assim como o tricampeonato do Brasil na Copa do Mundo de 1970 serviu para que a população desviasse sua atenção dos crimes políticos cometidos pelo regime da ditadura militar, o mesmo aconteceu com a Argentina na Copa do Mundo de 1978, que ainda contou com o atrativo de ser realizada no próprio país.
A trama do filme acontece justamente no dia da final da Copa, quando a seleção local enfrentou a equipe holandesa. Num porão escondido, agentes do governo tentam arrancar confissões de presos políticos recorrendo à tortura. Enquanto isso, assistem ao jogo pela televisão. Uma música alegre de fundo ressalta o quanto essa atrocidade se tornou cotidiana para os torturadores. Conseguem, enfim, extrair de uma das vítimas o endereço do esconderijo de um grupo rebelde.
Mas, sem saber, os militares acabam capturando um grupo de pessoas ligadas ao ocultismo. E, ao começarem a torturá-las, elas se transformam em criaturas bestiais, que ainda contaminam outros presos, como acontece com zumbis. Esses seres do além são bem elaborados, e parecem tremendamente horrendos. Em muitos casos, filmes B como esse atingem um tom mais aterrorizador do que as grandes produções, porque se permitem maiores ousadias (como o pênis arrancado em certo trecho), e também colocam o sobrenatural mais próximo do cotidiano do público. E temos como prova dessa percepção os filmes dos brasileiros José Mojica Marins e Rodrigo Aragão.
Personagens fracos
Os problemas deste filme dos irmão Luciano Onetti e Nicolás Onetti, especialistas no terror, não estão na plasticidade – tanto as criaturas quanto os cenários (repletos de sangue) são mais do que eficientes. Porém, as encenações soam artificiais (por exemplo, quem colocaria a mão numa poça de sangue?) e contraproducentes (os seres ficam estáticos e demoram para atacar). Na parte final, quando os sobreviventes saem do local infestado por criaturas, começa a tocar uma canção que soa errada para esse momento, pois não se conecta com as emoções envolvidas nem serve como sátira.
Mas, acima de tudo, o filme trabalha mal os personagens. É difícil saber quem é quem. Inexiste uma construção favorável aos presos políticos, e o torturador chefe, aquele que seria o mais odiado pelo público, é o primeiro a morrer. E é uma morte sem graça, quando deveria ter proporções épicas para dar vazão catártica ao sentimento universal de repulsa pela tortura. Além disso, as criaturas não atacam apenas os torturadores, mas também as vítimas da ditadura presas no local, o que revela o abandono de um posicionamento político dos realizadores. Há até uma tentativa de opressor e vítima se unirem para fugir, ideia que também estraga a premissa inicial. Na verdade, a quantidade de personagens parece exagerada, o que torna ainda mais confusa a narrativa, defeito que surge primeiramente pelo uso de planos curtos demais.
Tirando a bela plasticidade das criaturas e dos cenários, 1978 frustra quem espera assistir a um provocativo terror político.
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Ficha técnica:
1978 | 2024 | 76 min. | Argentina, Nova Zelândia | Direção: Luciano Onetti, Nicolás Onetti | Roteiro: Luciano Onetti, Nicolás Onetti, Camilo Zaffora | Elenco: Agustín Olcese, Mario Alarcón, Carlos Portaluppi, Santiago Ríos, Jorge Lorenzo, Agustín Pardella, Ezequiel Pache, Paula Silva, Justina Ceballos.



