A Cronologia da Água

Título original: The Chronology of Water

Direção: Kristen Stewart

Ano de lançamento: 2025

Data de estreia no Brasil: 02/04/2026

Gênero:

Mais informações na ficha técnica abaixo do texto

Avaliação: 7,5/10

Para a sua estreia em longas, a atriz Kristen Stewart escolhe um tema forte, alinhado ao que ela defende como personalidade pública. Baseado no livro de memórias de Lidia Yuknavitch, A Cronologia da Água leva para as telas os doloridos efeitos que martirizam uma vítima de abuso sexual praticado pelo próprio pai.

A narração que cita o texto do livro, presente em vários momentos do filme, menciona a palavra fragmentos, que parece guiar as escolhas da diretora Kristen Stewart. No lugar da tradicional narrativa linear, Stewart prefere soluções experimentais. A cronologia dos acontecimentos serve como guia, porém numa evolução singular, pois o presente sempre sofre ataques das más experiências do passado. A protagonista passa por diversas fases para enfrentar seus traumas, num processo que chama de cronologia da água, cujas etapas viram capítulos do longa-metragem.

A primeira parte apresenta o estilo mais radicalmente experimental. Os fragmentos se materializam em planos muitos curtos, muitos deles apenas flashes, que filmam detalhes, alguns indistinguíveis. Os textos narrados tampouco explicam, mas acrescentam pedaços de informação que contribuem para a dedução do espectador. Não importa a sintaxe obscura, nas entrelinhas dessa elipse imagética se depreende um ato devastador que os ruídos cortantes e ensurdecedores no filme tentam exprimir o quão doloroso pode ser. Um ponto de sujeira na lente da câmera simboliza a mancha que impactará para sempre a vida de Lidia Yuknavitch (Imogen Poots).

Experiência devastadora

A violência do pai vai além do abuso sexual. Impregna também o tratamento agressivo à sua família exclusivamente feminina (a esposa, Lidia e a caçula). E alcança o cerceamento da liberdade, e do futuro, da filha, que ganha bolsas parciais para algumas universidades por suas conquistas na natação, mas o pai acha pouco e desconsidera. A boa performance na água tem explicação: Lidia pode se concentrar e deixar de lado suas aflições – sensação que a escrita do livro lhe proporcionará também no futuro.

Com muita coragem, Lidia confronta o pai e parte para uma universidade no Texas. Porém, ela se tornou uma pessoa sem estrutura. Abalada psicologicamente, se perde nas drogas e nas bebidas. Ao participar de um grupo de escrita com o veterano ator Ken Kesey, que escreveu “Um Estranho no Ninho”, entre outros livros, vislumbra um caminho a seguir. O filme, então, adquire um estilo mais clássico, e deixa de ser experimental por algum tempo. No entanto, o mentor junkie não será a solução definitiva para Lidia.

Após outros momentos de muito sofrimento, Lidia finalmente encontra sua paz, no perdão, na escrita, e no apoio de, enfim, um homem que presta. Mesmo não sendo um final feliz, Lidia esboça sorrisos que já não soam nervosos.

Imogen Poots entrega uma interpretação arrasadora nesse papel dificílimo. Certamente, contar com uma diretora-atriz deve ter lhe dado a confiança necessária para essa entrega corajosa. Quanto a Kristen Stewart, como diretora ela opta pela arriscada escolha pelo filme semi-experimental. Decisão correta, pois provoca no espectador uma experiência devastadora, como exigem as sofridas memórias de Lidia Yuknavitch. Intencionalmente, A Cronologia da Água incomoda. É um filme que ninguém quer ver de novo. E nem precisa, pois deixa marcas impossíveis de se esquecer.

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Ficha técnica:

A Cronologia da Água | The Chronology of Water | 2025 | 128 min. | EUA, França, Letônia | Direção: Kristen Stewart | Roteiro: Kristen Stewart | Elenco: Imogen Poots, Thora Birch, Jim Belushi, Tom Sturridge, Charlie Carrick, Jeremy Ang Jones, Kim Gordon.

Distribuição: Filmes do Estação.

Trailer:

Onde assistir:
Imogen Poots em "A Cronologia da Água" (divulgação/Filmes do Estação)

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