A Garota Canhota é o cinema independente de Sean Baker made in Taiwan. O filme marca a estreia em direção solo de Shih-Ching Tsou, parceira criativa de longa data de Baker, com quem co-dirigiu Take Out (2004). Tsou também assina a produção de vários filmes de Baker, incluindo Uma Estranha Amizade (Starlet, 2012), Tangerine (2015), Projeto Flórida (The Florida Project, 2017) e Red Rocket (2021). Em A Garota Canhota, Baker é co-roteirista, produtor e editor.
As características de Sean Baker marcam este filme de Shih-Ching Tsou. As imagens foram todas filmadas com um celular iPhone, repetindo, assim, a experiência de Tangerine. Esta opção causa certa estranheza para o espectador de cinema, mas conversa tranquilamente com o público habituado a assistir vídeos em redes sociais, e por isso serve à intenção dos realizadores de captar a realidade. Nesse intuito, eles também costumam filmar nas ruas. Desta vez, nas ruas da vibrante capital Taipen, o que traz um atrativo adicional para o público ocidental.
Reforçando o objetivo de se alcançar o naturalismo, Baker e Tsou costumam utilizar atores não-profissionais em seus filmes. É o caso aqui de Shih-Yuan Ma, que interpreta I-Ann, a filha mais velha. As outras duas protagonistas – a mãe Shu-Fen e a caçula I-Jing – são, respectivamente, vividas pela modelo e atriz Janel Tsai e a atriz-mirim Nina Ye.
À margem da sociedade
A Garota Canhota mantém o foco temático do cinema de Sean Baker, ou seja, a dura vida dos losers à margem da sociedade, aquelas pessoas que precisam ralar em trabalhos autônomos para se sustentar.
Esse é o caso de Shu-Fen que abre um pequeno restaurante num quiosque numa feira de rua noturna em Taipen. A pequena I-Jing, de apenas 5 anos, precisa ajudar servindo a mesa, enquanto a outra filha, I-Ann, trabalha em uma outra loja pequena de rua que vende produtos eletrônicos. As perspectivas para as três são desanimadoras.
O restaurante tem poucos clientes e Shu-Fen não consegue pagar o aluguel do quiosque. Para piorar a sua situação financeira, seu solitário ex-marido morre e ela precisa pagar pelo enterro. A família dela se recusa a ajudá-la, pois a mãe e as irmãs a consideram uma perdedora.
I-Ann, por sua vez, não foi para a faculdade e só consegue emprego de terceira categoria. Nesse atual, ainda se encrenca fazendo sexo com o dono da loja sem nenhuma proteção.
A menina I-Jing surpreende por andar sozinha pelas ruas da cidade. Mas, ela ainda é ingênua e suscetível ao que os adultos dizem. Por ser canhota, o avô dela, ainda seguindo antigos preconceitos, lhe ordena a usar a mão direita, pois a esquerda é a mão do diabo. Influenciada, ela passa a praticar pequenos furtos nos quiosques da feira usando a mão esquerda. Na sua cabeça, o diabo pratica esses crimes, não ela. A prática dos furtos acarreta uma confusão que, sem intenção, ajuda a avó.
Conclusão otimista
A trama parece acompanhar esses personagens sem ter exatamente para onde ir. Dá a impressão de que se trata de um retrato desse momento, sem a intenção de contar uma narrativa com começo, meio e fim. Porém, a parte final surpreende com um clímax dramático, quando um segredo é exposto em público, durante a festa de 60 anos da mãe de Shu-Fen, diante de toda a família reunida em um restaurante fechado para esse evento. Isso conduz à cena final, na qual as três protagonistas continuam com as suas rotinas, mas transparecendo uma leveza antes inexistente. Após tirarem o peso do segredo de suas costas, podem seguir em frente com outra mentalidade.
Nessa conclusão, o tema musical animado se encaixa com o tom otimista. Porém, as suas inserções anteriores indicavam um sentimentalismo forçado para criar um momento de fofura, mesmo quando não combinava com as imagens – como I-Ann perigosamente cruzando um semáforo vermelho ao dar carona para sua irmã. Por outro lado, a revelação dá sentido a outros trechos do filme. Em especial, quando I-Ann faz a menina I-Jing passar de loja em loja para devolver os objetos que ela furtou. É o primeiro momento em que o filme mostra I-Ann agindo sensatamente. E representa uma evidência de que a vida das três protagonistas poderá melhorar com a assunção da verdadeira relação entre elas perante a família e os amigos.
A forma, a crítica ao capitalismo, os personagens marginais, o elenco não-profissional são características do cinema dos realizadores Sean Baker e Shih-Ching Tsou. O diferencial dessa cineasta taiwanesa (que se mudou para os Estados Unidos em 1998) em A Garota Canhota está na escolha de Taipen (tão familiar para Tsou quanto Nova York para Baker) e, acima de tudo, nesse final veladamente otimista.
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Ficha técnica:
A Garota Canhota | Zuopiezi Nuhai / Left-Handed Girl | 2025 | 108 min. | Taiwan, França, EUA, Reino Unido, Singapura | Direção: Shih-Ching Tsou | Roteiro: Sean Baker, Shih-Ching Tsou | Elenco: Janel Tsai, Shih-Yuan Ma, Nina Ye, Teng-Hui Huang, Teng-Hung Hsia, Blaire Chang.
Distribuição: Netflix.



