Em A Graça, Paolo Sorrentino entrelaça trama, personagens, temas e forma. O resultado é cinema total.
O filme trabalha dois protagonistas complexos. Mariano De Santis (Toni Servillo) é o atual presidente da Itália, com um mandato que se encerra em seis meses. E Dorotea De Santis é a sua filha, jurista como o pai e o braço direito dele. Ela insiste para que ele tome três decisões importantes antes de deixar o cargo. Ou seja, que não procrastine como sempre costuma fazer.
As três decisões estão interconectadas indiretamente. A mais impactante é a aprovação ou não da lei sobre eutanásia. As outras duas consistem em indutos para libertar dois condenados. Um deles se chama Cristiano Arpa, um homem que matou a sua esposa alegando que a aliviou da doença de Alzheimer. O outro induto diz respeito a Isa Rocca, condenada por assassinar o marido que a torturava. Quando Dorotea vai à prisão para conversar com Isa, esta lhe diz que livrou o marido do tormento mental que o abatia.
A rigidez de Mariano, que lhe valeu o apelido de Cimento Armado, afeta os dois filhos. O mais novo é um músico clássico que abraçou o rap e se mudou para o Canadá. E Dorotea, nesse momento crepuscular da carreira do pai, percebe que dedicou a sua vida toda a ele, sem permitir a si mesma um respiro de liberdade. Os dois irmãos se reúnem ao final para curtirem juntos essa liberdade que necessitam, movimento que os ajuda a se entenderem melhor com o pai. A composição clássica que o filho toca para o pai no final representa essa conciliação.
O peso que Mariano carrega
No caso do personagem principal Mariano, o arco possui mais turbulências. A sua rigidez se deve em parte pela morte da esposa. Mas, principalmente pelo fato de ela o ter traído há 40 anos. E não saber quem era o amante o atormenta até hoje. Essa perturbação o levou a agir com insensatez. No velório da esposa, e agora numa exibição de um vídeo de dança, ele se levanta e encara seu melhor amigo (e candidato a ser o seu sucessor na presidência), pois tem quase certeza de que ele era o amante.
Carregar o peso dessa traição por tantos anos tornou-o essa pessoa tão rígida. Como prova disso, e também para testar a sua consciência em relação à eutanásia, ele recusa que deem um tiro de misericórdia no seu cavalo que está agonizando. Já a figura meio cômica do astronauta italiano que passa um ano no espaço, na ausência da gravidade, ilustra a leveza que ele precisa.
Eventualmente, uma pessoa próxima confessa que foi amante de sua esposa. Essa informação o liberta para ser uma pessoa mais leve. Capaz, inclusive, de reavaliar a questão da graça, no contexto cristão, significando perdão. Perdoar a esposa, o amante, considerar os indutos, enfim, leva à parte final, que o diretor Paolo Sorrentino envolve com suspense ao retardar a revelação das decisões do presidente. Após o título do filme, breve cenas mostram o protagonista bem mais leve do que era antes.
Permissão para ser leve
Essa necessidade de leveza aparece em outra cena anterior, quando o presidente visita uma cidade fronteiriça e decide de sopapo cantar em voz alta o hino dos moradores locais em homenagem aos que resistiram à invasão de estrangeiros em tempos de guerra. Além disso, a urgência de se mudar antes que seja tarde, ou seja, idoso demais fica evidente para Mariano quando ele observa o envelhecido presidente de Portugal sofrer para chegar do carro até a entrada do Palácio do Quirinal sob uma forte tempestade. Filmado com um toque quase fantástico, esse trecho acontece em câmera lenta contrastando com a trilha musical eletrônica, efeitos que intensificam esse momento.
A Graça, por isso, pode ser chamado de cinema total. Uma obra que interliga tudo o que aborda dentro de uma mise-en-scène enriquecida. Às vezes, parece não fazer sentido, mas apenas porque vai além do naturalismo tão em voga atualmente. Como seu personagem, o diretor Sorrentino evita a rigidez e se permite ser leve.
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Ficha técnica:
A Graça | La Grazia | 2025 | 133 min. | Itália | Direção: Paolo Sorrentino | Roteiro: Paolo Sorrentino | Elenco: Toni Servillo, Anna Ferzetti, Orlando Cinque, Massimo Venturiello, Milvia Marigliano, Giuseppe Gaiani, Giovanna Guida, Alessia Giuliani, Roberto Zibetti, Vaso Mirandola, Linda Messerklinger, Rufin Doh Zeyenouin, Alexandra Gottschlich.
Distribuição: MUBI e Pandora Filmes.



