A Natureza das Coisas Invisíveis acompanha o amadurecimento de duas meninas de 10 anos, a partir da proximidade da morte de uma pessoa próxima. Mas, também, trata da espiritualidade, por conta da mediunidade de uma das protagonistas mirins que vê as tais coisas invisíveis.
Na trama, Glória está de férias da escola. Mas, precisa acompanhar a mãe enfermeira no hospital, pois ela não tem onde a deixar. Ali, ela conhece Sofia, que chamou a ambulância para buscar a sua bisavó que passou mal e caiu. A mãe de Sofia, vivida por Camila Márdila, enfrenta o mesmo problema de não ter como ficar com a filha porque trabalha. Durante a primeira metade do filme, as meninas se tornam amigas, e as mães também.
O início dessa relação permite que todos partam para o sítio da bisavó. A música alegre já entrega que a mudança de ambiente, do hospital para o sítio, é benéfica. Já no dia seguinte, a bisavó, até então inconsciente ou com perda de memória, parece curada. Mas, uma recaída a derruba novamente.
Roteiro e direção
A roteirista e diretora brasiliense Rafaela Camelo apresenta algumas boas soluções narrativas. Uma delas abre o filme, com o olho de Glória quase imperceptível na pequena fresta da porta de uma das cabines do banheiro da escola. Em seguida, na cabine ao lado, ela vê um porco. Essa inusitada aparição, que deixa a dúvida de ser uma alucinação, uma visão mediúnica, ou uma liberdade surreal – dúvida esclarecida na conclusão.
A espiritualidade ocupa um lugar de destaque em A Natureza das Coisas Invisíveis. A segunda metade, no sítio, está repleta de canções religiosas, numa presença tão sufocante quanto em Os Fuzis (1964), de Ruy Guerra. O uso da música chega a ser exagerado, ou equivocado, na cena em que acaba revelando antes do tempo que a cura religiosa não salva uma das personagens.
A escolha do elenco é um pouco problemática, pois os atores que interpretam membros da mesma família não se parecem, causando um ruído que seria evitável. A construção quase caricata de alguns personagens, como a bisavó, parece uma conceção para aliviar o clima do filme. Já no caso do paciente Seu Osvaldo funciona com mais naturalidade.
O roteiro, por sua vez, traça conexões inteligentes. Glória costuma pegar as coisas de crianças que morreram no hospital, uma prática que ecoa o fato de ela ter recebido um transplante de coração. O fato de Sofia ser trans parece, a princípio, uma gratuidade para se antenar à modernidade. Porém, tal particularidade se mostra importante para a narrativa, pois o menino que antes era Sofia já morreu para ela – daí as benzedeiras encomendarem a sua alma. As duas mortes, a simbólica e a concreta, assim, representam o marco do amadurecimento das meninas protagonistas.
Por fim, os créditos de fechamento trazem uma brincadeira com os agora espíritos dublando a música “Eu Queria Dizer Que Te Amo Numa Canção”, de Fernando Mendes.
Espiritismo e amadurecimento andam lado a lado em A Natureza das Coisas Invisíveis, a promissora estreia de Rafaela Camelo.
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Ficha técnica:
A Natureza das Coisas Invisíveis | 2025 | 90 min. | Brasil | Direção: Rafaela Camelo | Roteiro: Rafaela Camelo | Elenco: Laura Brandão, Serena, Larissa Mauro, Camila Márdila, Aline Marta Maia.
Distribuição: Sessão Vitrine Petrobrás.



