A indústria hollywoodiana não perde tempo quando surge algum novo e promissor talento. Como a diretora Celine Song, que esteou em longas com o delicioso drama romântico Vidas Passadas (Past Lives, 2023). E logo recebeu uma proposta para subir de patamar em Amores Materialistas, produção de alto padrão com elenco estelar.
Novamente escrito e dirigido pela cineasta, Amores Materialistas se passa em Nova York. Dakota Johnson interpreta Lucy, que trabalha como casamenteira numa agência especializada em unir duas pessoas com potencial para se casarem. Na filial da Big Apple, ela é a funcionária de destaque, e acaba de comemorar a realização do nono casamento em sua carteira de clientes.
Lucy se declara solteira convicta e celibatária por opção. Mas, na festa do enlace matrimonial de sua cliente, conhece Harry (Pedro Pascal), o irmão do noivo. Segundo a sua avaliação profissional, ele se classifica como um unicórnio no mercado de solteiros. Ou seja, um homem alto, de família estável e rica, ele próprio também rico, com boa formação etc. Um ativo tão valioso que, talvez, ela reserve para si mesma.
Por coincidência, na mesma festa, Lucy reencontra John (Chris Evans), o ex-namorado com quem rompeu porque os dois estavam mal financeiramente. O tempo passou, e Lucy conquistou um emprego bom, enquanto John ainda aposta na sua carreira de ator, se sustentando com trabalhos esporádicos em buffets.
Assim, está formado um clássico triângulo amoroso. Lucy precisa decidir se fica com Harry ou com John, dois competidores contrastantes no cabelo moreno e loiro, e nas suas situações econômicas atuais e potenciais para o futuro.
Casamento é um negócio
O cenário parece mais próximo do cinema clássico do que do cinema independente de Celine Song e da produtora do filme, a A24. Mas, na verdade, Amores Materialistas vai além disso. Como o próprio título e a introdução (um inusitado encontro entre homem e mulher na pré-história) provocam, o casamento, ou a escolha do parceiro para a vida, é uma questão matemática. A ousadia de Celine Song e da A24 está em confrontar a essência da narrativa romântica. Indo direto ao ponto, o que importa no relacionamento não é o amor, mas o dinheiro (no sentido de valor econômico, já que na pré-história não existia dinheiro). Segundo essa linha de raciocínio, casamento é um negócio que deve ser lucrativo para as duas partes.
Durante os dois terços iniciais do filme, pululam argumentos que defendem essa ideia. Encontram-se nos diálogos – por sinal, bem escritos, duros nas discussões de relacionamento, sinceros e com um toque de complexidade. E, também, nas imagens, que martelam o contraste econômico entre Harry e John. Nesse sentido, não surpreende que, logo após a cena de sexo entre Lucy e Harry no apartamento de US$ 13 milhões dele, surja a caótica sequência dentro do cubículo que John aluga por US$ 850 dividindo com mais duas pessoas. Cortes abruptos, sincronizando as transições com movimentos e sons em cena, salientam a dureza dessa racionalização.
O filme conduz eficientemente essa defesa ousada, empilhando motivos que sustentam a ideia. Pode ser diferente do que pensam os espectadores, mas a argumentação faz sentido e, por isso, provoca um divertido exercício lógico.
Uma virada mal explicada
Porém, um evento doloroso muda a percepção de Lucy em relação ao seu trabalho. Embora ela mesmo afirmasse que marcar encontros envolve riscos, jamais se atentara para a possibilidade de uma cliente ser agredida pelo homem indicado por ela. Quando isso acontece, é justificável que a protagonista questione o que faz, que tente desesperadamente conversar e oferecer ajuda a essa cliente.
Repercutindo essa alteração na personagem principal, o filme também muda. Na parte inicial, uma montagem com clientes homens conduz com humor agradável a crítica às exigências deles em relação às parceiras que desejam. Mas, depois do evento da agressão, quando surge uma montagem equivalente com as clientes mulheres, o tom da comédia está mais brutal, a ponto de transformá-las em pessoas odiosas.
Por outro lado, o enredo muda de rumo sem uma conexão satisfatória entre causa e efeito. A agressão sofrida pela cliente justifica o questionamento de Lucy em relação ao seu trabalho, porém, não explica o fato de ela abandonar a ideia de que o casamento é um negócio e de ela passar a crer no amor verdadeiro. Com isso, Amores Materialistas perde o encanto de sua provocação para cair no costumeiro desfecho de uma comédia romântica regular. Seria aceitável essa reviravolta, desde que devidamente fundamentada.
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Ficha técnica:
Amores Materialistas | Materialists | 2025 | 116 min. | EUA, Finlândia | Direção: Celine Song | Roteiro: Celine Song | Elenco: Dakota Johnson, Chris Evans, Pedro Pascal, John Magaro, Zoe Winters, Marin Ireland, Dasha Nekrasova, Emmy Wheeler, Louisa Jacobson, Eddie Cahill, Joseph Lee.
Distribuição: Sony Pictures.



