Anônimo é o segundo longa de Ilya Naishuller, diretor oriundo de Moscou. Ele fez antes Hardcore: Missão Extrema (2015) e acaba de lançar Chefes de Estado (2025), estrelado por John Cena, que foi direto para o streaming da Prime Video. Mas, sua carreira possui mais créditos como diretor de videoclipes, influência escancarada na forma como ele apresenta e reforça a insípida rotina do protagonista Hutch Mansell (Bob Odenkirk). Para isso, utiliza montagens repetitivas de planos extremamente curtos de suas aborrecidas atividades diárias.
Quando ladrões pés-rapados invadem a sua casa, ele tem a chance de agredir um deles, mas prefere não fazer nada. Com isso, sua imagem perante seus conhecidos, que já não tinha nenhum brilho, fica ainda pior. Todos passam a vê-lo como um molengão, inclusive o seu filho pós-adolescente.
A premissa de Anônimo parece se inspirar na série que revelou o ator Bob Odenkirk para o grande público. Pois, como em Breaking Bad, o protagonista parece ser um cidadão pacato, e até desinteressante, mas esta é apenas uma fachada para uma outra faceta secreta. Porém, bem menos original que o personagem Walter White, este Hutch Mansell é um ex-agente do FBI, o que não o diferencia de tantos outros que encabeçam várias produções americanas nas últimas décadas.
O assalto à casa de Hutch serve de gatilho para despertar a brutalidade que ele tem se esforçado para manter inerte. No entanto, ele jamais ignora a sua humanidade. Por isso, desiste de castigar os ladrões que entraram em sua casa, ao perceber que eles são um casal e roubam para sustentar o filho recém-nascido enfermo.
Exército de um homem só
Por outro lado, Hutch precisa dar vazão à raiva que o sufoca. Assim, coloca-se numa posição de vítima potencial até que se depara com uma turma de cinco arruaceiros num ônibus. A briga com eles é bem filmada, e o fato de o protagonista apanhar muito foge do padrão do ex-agente com habilidades quase super-humanas. Este confronto representa o verdadeiro ponto de ignição da trama, porque, sem que Hutch saiba, um dos rapazes dessa gangue é o irmão caçula de Yulian, um perigoso bandido russo, que passará o restante do filme em busca de sua vingança.
A partir daí, o filme cai no subgênero do exército de um homem só. Abandona o equilíbrio de forças da luta no ônibus, e Hutch acaba mesmo encarnando mais uma das variações de Rambo ou similar. Aliás, a cena em que Hutch prepara armadilhas no prédio onde trabalha lembra muito uma situação parecida em Rambo: Até o Fim (2019). Assim, o diretor prepara o terreno para o grande confronto final, quando Hutch conta com o apoio de dois antigos parceiros (um deles interpretado por Christopher Lloyd). Mas o roteiro é evasivo demais em relação aos personagens, tanto esses quanto o principal. Não há explicações sobre os motivos que os levaram a deixar o FBI (no caso de Hutch) ou quem eles são de fato (os demais), um dado essencial para o enredo.
A ação do confronto final possui alguns bons momentos, entre eles a luta em câmera lenta com os golpes coreografados, ao som de “Don’t Let Me Be Understood”, na versão de Nina Simone. Mas, também alguns recursos repetidos (o tiro único que derruba mais de um oponente) e algumas armadilhas pouco engenhosas. Essa conclusão, enfim, reflete a avaliação do filme, que no geral alterna boas ideias com outras que não funcionam.
___________________________________________
Ficha técnica:
Anônimo | Nobody | 2021 | 92 min. | China, Japão, EUA | Direção: Ilya Naishuller | Roteiro: Derek Kolstad | Elenco: Bob Odenkirk, Aleksey Serebryakov, Connie Nielsen, Christopher Lloyd, Michael Ironside, Colin Salmon, RZA, Billy MacLellan, Araya Mengesha, Gage Munroe, Paisley Cadorath.



