Ato Noturno é o terceiro longa da dupla Filipe Matzembacher e Marcio Reolon. Os dois cineastas porto-alegrenses fizeram antes Beira-Mar (2015) e Tinta Bruta (2018). Desta vez, se arriscam num romance entremeado de suspense, sobre dois homens que se apaixonam e precisam esconder o relacionamento conforme eles se aproximam de seus diferentes objetivos profissionais.
Matias (Gabriel Faryas) é um jovem ator que se muda para Porto Alegre para ser um dos protagonistas da nova produção de uma prestigiada companhia de teatro. Através de um aplicativo de encontros, ele conhece Rafael (Cirillo Luna), com quem transa com muito cuidado para que ninguém os veja. Logo, Matias descobre o motivo de tanta cautela de seu parceiro: Rafael é um dos principais candidatos na eleição a prefeito da cidade e teme que seus patrocinadores o boicotem caso descubram que ele é gay.
Com a ajuda de Rafael, Matias consegue o papel principal de uma série que começa a ser rodada em Porto Alegre. Com isso, o ator também passa a ter restrições com sua imagem. Ele interpreta um personagem hétero e precisa assinar um contrato com uma cláusula de conduta. Caso seu comportamento fora das telas atrapalhe a popularidade da série, seu contrato será rescindido.
Suspense forçado
O roteiro força situações para criar suspense. Matias e Rafael se arriscam desnecessariamente ao fazerem sexo onde podem ser vistos. Chegam até a transar em um estacionamento, ao lado de um carro, quando uma família acaba de chegar ali, e onde podem ser facilmente vistos pelas pessoas nas janelas dos apartamentos ao redor. Soa estranho esse descuido, porque numa inexplicável cena anterior, Rafael em roupa de couro e com uma máscara se recusa a fazer sexo com Matias numa praça de cruising, porque não quer ser visto. Além disso, os dois se pegam no escritório de Rafael, durante o expediente, e dentro do carro, quando poderiam ir a um motel ou algo parecido. Faltou uma explicação, ou explicitação, para essa compulsão por transar em público, justamente por ser um casal que precisa evitar essa exposição a todo custo.
A tensão se torna mais concreta na rivalidade que surge entre Matias e seu companheiro de apartamento Fabio (Henrique Barreira). Os dois disputam o protagonismo na mesma peça de teatro, e o papel na série. Em contrapartida, o chefe de Rafael conta com um capanga perigoso, Camilo (Ivo Müller), disposto a tudo para preservar os interesses do seu patrão, incluindo aí manter intacta a imagem do candidato a prefeito.
O enredo prefere não enfatizar o risco real que correm os protagonistas, que levaria o filme para o gênero do suspense policial. Esbarra nele, mas a conclusão no parque mostra os personagens assumindo um comportamento pouco natural, moldado para defender a bandeira da liberdade de gênero. Funcionaria na chave poética que a narração de Matias parece indicar, que seria melhor do que aceitar que os dois possam desistir dos seus sonhos profissionais faltando tão pouco para conquistá-los.
Um primor de direção
Se o roteiro não está azeitado, na direção Filipe Matzembacher e Marcio Reolon realizam um belo trabalho. Filmado com primor, Ato Noturno apresenta várias cenas com um apuro visual muito bem conectado com a narrativa. Por exemplo, a sequência em que Matias recebe a notícia de que conseguirá o papel na série. Entusiasmado, ele coloca uma música e dança em frente à janela de seu apartamento. Quando a música para, os ruídos da cidade a substituem e o fazem sentir exposto. Após um momento de epifania, ele fecha as cortinas da janela, consciente de que, a partir de agora, ele não pode mais se expor. Em outro momento, mais simples mas também emblemático, os diretores usam a tela dividida para comparar os dois momentos diferentes dos colegas. Matias está contente com a sua ascensão, enquanto Fabio desce as escadas simbolizando o seu declínio.
Ato Noturno, assim, cresce na apreciação do seu trabalho de direção, porém, não agrada tanto para quem só acompanha a trama.
___________________________________________
Ficha técnica:
Ato Noturno | 2025 | 117 min. | Brasil | Direção: Filipe Matzembacher, Marcio Reolon | Roteiro: Filipe Matzembacher, Marcio Reolon | Elenco: Gabriel Faryas, Cirillo Luna, Henrique Barreira, Ivo Müller, Kaya Rodrigues, Larissa Sanguiné, Gabriela Grecco, Antonio Czamanski, Thiago Pethit.
Distribuição: Vitrine Filmes.
Trailer:



