Blue Moon expõe o lado amargo do letrista Lorenz Hart, durante a noite de 31 de março de 1943, no ano em que morreria aos 48. Hart testemunha o sucesso do musical “Oklahoma!”, escrito pelo seu antigo parceiro Richard Rodgers, agora em parceria com Oscar Hammerstein II. A dupla Rodgers-Hart compôs várias obras imortais, como a famosa canção do título deste filme. E já rendeu outro filme, Minha Vida é uma Canção (Words and Music, 1948), de Norman Taurog, com Mickey Rooney interpretando Hart.
Desta vez, um excelente Ethan Hawke coberto de maquiagem (para ficar feio) dá vida a Lorenz Hart. O filme se passa num cenário único, o icônico Sardi’s, bar dos artistas e frequentadores dos teatros da Broadway localizado na 234 W. 44th St. Sentado no balcão, Hart sucumbe ao alcoolismo que arruinou sua parceria com Rodgers (Andrew Scott), enquanto conversa com o barman Eddie (Bobby Cannavale), que está especialmente interessado em sua relação com a estudante de Yale chamada Elizabeth Weiland (Margaret Qualley). Baixinho e feio, Hart nutre a ilusão de que essa sua bela mentorada possa se interessar sexualmente por ele.
A amargura de Hart resulta de sua autoconsciente depreciação física, mas também por ver seu antigo parceiro alcançando um sucesso que eles nunca obtiveram juntos. Para piorar, acaba se afundando na bebida.
Sentenças que encantam
A força maior de Blue Moon está no roteiro, assinado pelo escritor Robert Kaplow (autor de “Eu e Orson Welles”), estreando no cinema. As linhas que Kaplow escreveu para as falas do personagem Lorenz Hart são brilhantes, provavelmente próximas de como ele se expressava. Embora sempre sagaz, o protagonista envereda bastante no contexto sexual com termos grosseiros. Além disso, não esconde uma autocrítica severa.
Como diretor, Richard Linklater tem o mérito de enfatizar o trunfo de contar com o roteiro de Kaplow. Além disso, usa muitos planos durante os diálogos, para evitar que o filme se torne uma experiência de teatro filmado com uma câmera fixa no proscênio. Por isso, além do balcão do bar, circula um pouco pelo ambiente do Sardi’s, no hall entre a escada e a porta de entrada.
Mas, Linklater exagera demais em reforçar a baixa estatura de Hart, que por isso parece artificialmente forçada em alguns trechos, já que o ator Ethan Hawke tem 1,79 m de altura. Até quando ele está sentado – por exemplo, ao lado de Elizabeth – o diretor sempre filma Hart em uma posição inferior. Nem precisava desse truque visual para frisar que o letrista sempre esteve em segundo plano, tanto no trabalho como no amor, pois as falas já deixam isso bem evidente. E de uma maneira que prende o espectador da primeira à última frase.
O filme Blue Moon é um dos destaques da 49ª Mostra.
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Ficha técnica:
Blue Moon | 2025 | 100 min. | EUA, Irlanda | Direção: Richard Linklater | Roteiro: Robert Kaplow | Elenco: Ethan Hawke, Margaret Qualley, Bobby Cannavale, Andrew Scott, Giles Surridge, Patrick Kennedy, David Rawle.



