Filme de abertura do 20º Festival de Cinema Italiano, De Nápolis a Nova York se baseia numa história escrita por Federico Fellini e Tullio Pinelli, que nunca saíra do papel. A tarefa de adaptá-la coube ao experiente diretor Gabriele Salvatores.
O enredo acompanha duas crianças na Nápolis do pós-guerra, em 1949. Celestina (Dea Lanzaro) tem 10 anos e Carmine (Antonio Guerra) é um pouco mais velho. Os dois ficaram órfãos na guerra e tentam sobreviver em meio às ruínas da cidade empobrecida com o fim da ocupação americana. Meio sem querer, embarcam como clandestinos em um navio rumo a Nova York.
A primeira metade do filme se mantém num jogo de gato e rato, no qual as crianças se escondem do olhar vigilante do comissário do navio, Garofalo, interpretado por Pierfrancesco Favino. No final das contas, Garofalo prova que é uma pessoa boa, e até ajuda os dois a desembarcarem nos Estados Unidos. As aventuras juvenis a bordo do navio não empolgam muito, pois a dupla de protagonistas mirins nunca corre nenhum perigo real.
Em Nova York, o filme melhora um pouco. Inclusive na direção de Gabriele Salvatores. Até então, o diretor se manteve no burocrático, caindo um pouco no mal-feito (os cortes rápidos demais nas sequências em Nápolis e a cafona escolha de músicas com letras conectadas com a narrativa). Mas, depois ousa um momento Aurora (Sunrise: A Song of Two Humans, 1927), obra-prima de F.W. Murnau, para mostrar o deslumbramento de Celestina e Carmine na grande cidade. Os tons dourados também se destacam em outra sequência.
Inofensivo
O melodrama, principalmente pela potencial tragédia que abate a irmã de Celestina, injeta emoção no filme. Porém, parece que há sempre um receio de abordar temas sérios. Por isso, quando os dois querem comprar um bolo e são barrados por preconceito contra estrangeiros, logo entra uma solução farsesca de correria pelas ruas. A direção de Salvatores, além disso, atrapalha a construção de tensão, como o flash desnecessário do rosto da esposa agredida enquanto a irmã de Celestina fala sobre seu namorado. O julgamento dessa personagem soa fantasioso demais, sem contar que o protesto feminista não tem nenhuma relação com esse processo. Similar condução suave demais aparece também no jogo de cartas que ganha dimensões de espetáculo público.
Dentro desse espírito de filme juvenil e inofensivo, pelo menos uma cena funciona a contento. É quando Celestina entra numa sessão de Paisá (1946), de Roberto Rossellini, e a menina se exalta ao reconhecer lugares e pessoas de Nápolis.
No entanto, De Nápolis a Nova York soa inofensivo demais para emocionar de verdade.
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Ficha técnica:
De Nápolis a Nova York | Napoli-New York | 2024 | 124 min. | Itália | Direção: Gabriele Salvatores | Roteiro: Gabriele Salvatores | Elenco: Pierfrancesco Favino, Dea Lanzaro, Antonio Guerra, Anna Ammirati, Antonio Catania.



