Cada vez mais frequentes, os incêndios florestais entram no centro do cinema contemporâneo. No caso do típico indie movie Depois do Fogo (Rebuilding), a queimada não aparece na tela, mas provoca as consequências que movem o seu enredo.
Na zona rural do Oeste Americano, Dusty (Josh O’Connor) possui um vasto terreno de 200 acres que acaba de ser devastado por um incêndio. Agora, só poderá voltar a cultivar ali daqui a oito anos. Então, antes de decidir como reconstruir a sua vida, se instala em um trailer oferecido pelo governo em um pequeno campo, para onde vão também algumas outras famílias.
Esta mudança repentina abre a oportunidade para Dusty passar mais tempo com a sua filha Callie-Rose (Lily La Torre), o que era complicado por conta de sua vida de cowboy, que o mantinha sempre longe da cidadezinha onde a menina mora com a ex-esposa dele, Ruby (Meghann Fahy, de Drop [2025]), e a avó, Bess (Amy Madigan, de A Hora do Mal [Weapons, 2025]).
Sempre com cara de desolado, o calado Dusty aos poucos se conecta com as outras pessoas do abrigo, e reata o contato com sua ex-família. Acompanhadas por uma trilha musical formada por violão dedilhado, as filmagens em locações rurais, muitas delas durante o crepúsculo, produzem uma aconchegante sensação de acolhimento, que significa a nova perspectiva que toma conta do protagonista.
Aconchego inebriante
Ele agora está num ambiente de pessoas, e não mais sozinho com o seu gado, como costumava ficar em seu rancho. E aprecia essa nova situação, pois parece aproveitar cada momento que vive. O ritmo lento, que usa até slow motion no trecho em que Dusty cavalga com Callie-Rose, indica que ele contempla o que experencia, no instante em que as coisas acontecem. Embora não seja o tema do filme, parece até que o longa estimula uma existência sem a pressão artificial da tecnologia. E, nesse cenário complicado, onde as pessoas perderam tudo, a esperança surge simbolicamente com a aparição de um broto novo em uma árvore queimada.
Depois do Fogo estabelece essa atmosfera calorosa, que isenta o espectador de buscar uma trama para seguir. Não é obrigação do cinema agradar ao público – muitas vezes o autor quer justamente provocar uma reação de desconforto. Porém, o cineasta Max Walker-Silverman, neste seu segundo longa, parece ter a intenção de colocar o espectador num estado de aconchego inebriante. Dá vontade de continuar a ver o filme por horas, e de revê-lo novamente o quanto antes.
É uma pena que Max Walker-Silverman se curve, na parte final, aos mandamentos do cinema comercial. Interrompe, então, essa sensação de bem-estar compartilhada pelo protagonista e pelo público, criando um conflito que impede essa continuidade. Junto com uma chuva torrencial, Dusty se torna refém de sua revolta interna. Mas, dá a volta por cima, num gesto de solidariedade comparável aos vários filmes edificantes já produzidos por aí. De fato, é bonito, é emotivo e carrega uma mensagem importante. Porém, desvia Depois do Fogo do caminho desobrigado que percorria até então.
___________________________________________
Ficha técnica:
Depois do Fogo | Rebuilding | 2025 | 96 min. | EUA | Direção: Max Walker-Silverman | Roteiro: Max Walker-Silverman | Elenco: Josh O’Connor, Lily La Torre, Meghann Fahy, Amy Madigan, Kali Reis.
Distribuição: Synapse.



