Família de Aluguel, o segundo longa da diretora Hikari, parte de uma premissa fantasiosa para tocar nas aflições humanas. Lembra Frank Capra, por não se prender à realidade para explorar a ideia de uma agência que vende o inusitado serviço de representar pessoas reais na vida dos clientes.
O protagonista do filme parece se inspirar no personagem de Bill Murray em Encontros e Desencontros (Lost in Translation, 2003), de Sofia Coppola, que também se passa em Tóquio. Como Murray, Brendan Fraser é um ator que está no Japão para ganhar a vida, em muitos casos gravando comerciais para TV. A diferença é que Phillip Vanderploeg já está nessa há anos e mal consegue se manter financeiramente. Por acaso, acaba participando de um serviço dessa agência chamada Família de Aluguel, interpretando um amigo americano num funeral fictício. O dono da agência, Tada (Takehiro Hira), gosta do trabalho dele e lhe oferece mais serviços.
Os papéis de Phillip
No primeiro deles, Philip interpreta o noivo em um casamento. O desfecho é feliz, e ele se sente bem por ter ajudado a cliente. Outros contratos são simples, e não provocam nenhum envolvimento pessoal. Por exemplo, Phillip e seus colegas fazem companhia para uma mulher que gosta de cantar no karaokê. Mas, dois casos o cativam profundamente, e são eles que conduzem a trama.
Num deles, ele se passa pelo pai que a menina Mia (Shannon Mahina Gorman) nunca conheceu. A mãe dela contrata esse serviço porque a presença de um pai pode ajudá-la a conseguir uma vaga na escola onde ela quer matricular a filha. Antes de tudo, ele precisa conquistar a confiança da menina, porém, sabendo que depois nunca mais a verá. Portanto, existe um evidente dilema de consciência nessa tarefa.
No outro caso, Phillip finge ser um escritor que entrevista um ator veterano chamado Kikuo Hasegawa (Akira Emoto). Ele se sente depressivo porque está perdendo a memória, por isso sua filha contrata o serviço para que ele se sinta valorizado novamente. Kikuo quer retornar pela última vez à casa onde viveu na juventude, e quer que Phillip o leve até lá, sem que a filha saiba. Mas, Phillip receia assumir essa responsabilidade, porque a saúde desse senhor está debilitada.
Paternidade e solidão
O filme toca em dois temas. Um deles conecta esses casos a um arrependimento de Phillip, são três situações que envolvem a paternidade. Ele sente empatia por Mia, pela ausência do pai em suas vidas. E, invertendo a posição de seu trabalho, vê em Kikuo o substituto para compensar a falha que cometeu com o seu pai. Esse braço da narrativa toca numa sensibilidade à flor da pele, o apelo é direto, mas sem ser piegas.
O outro tema, menos direto e mais profundo, envolve a solidão, carência que motiva muitos clientes da agência, e até o próprio dono dela, como o enredo revela a seu tempo. A insistência da diretora Hikari de inserir planos que mostram a cidade de Tóquio, principalmente à noite, pode parecer propaganda turística, mas elas reforçam a sensação de isolamento, o sentir-se sozinho numa cidade grande. Essa impressão se confirma nas cenas em que o solitário Phillip observa da sacada de seu modesto apartamento as janelas do prédio em frente que revelam a intimidade dos moradores, buscando na vida dos outros o que ele não encontrou para si. Aliás, uma cena que remete claramente a Janela Indiscreta (Rear Window, 1954). A busca recorrente do protagonista pela companhia de uma garota de programa sinaliza que a agência não está tão longe da realidade.
Família de Aluguel abraça o espectador que conhece a dor de se sentir sozinho. A beleza do filme aparece quando trata este tema, bem mais do que ao abordar a paternidade.
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Ficha técnica:
Família de Aluguel | Rental Family | 2025 | 110 min. | Japão, EUA | Direção: Hikari | Roteiro: Hikari, Stephen Blahut | Elenco: Brendan Fraser, Takehiro Hira, Mari Yamamoto, Akira Emoto, Shannon Mahina Gorman, Nanami Kawakami, Tamae Andô, Kan Kobayashi, Yuka Itaya, Hinata Kaizu, Shino Shinozaki, Masayuki Shida, Masayo Umezawa, Sei Matobu, Rihito Tachibana.
Distribuição: 20th Century Studios.
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