O diretor georgiano Alexandre Koberidze, que recebeu o prêmio da crítica no Festival de Berlim por What Do We See When We Look at the Sky? (2021), se sente à vontade para inserir as suas liberdades artísticas em seu novo filme, Folha Seca, selecionado para a 49ª Mostra.
Para começar, opta por caracterizar a tela como se fosse de uma televisão dos anos 1980 ou 1990. O formato de tela é 1.33 : 1, portanto, não é o atual widescreen. A qualidade, ao invés de digital, lembra fitas de VHS, ou transmissões via satélite de TV aberta daquela época. Trata-se, na verdade, de um truque muito usado para incrementar a nostalgia de filmes de época. Porém, a história de Folha Seca não se passa no passado. Pelo menos, nada indica isso, e o uso de celulares pelos personagens assinala que é um relato contemporâneo. Apesar disso, esse efeito perdura a duração inteira do filme.
Outra liberdade criativa incontornável que Alexandre Koberidze assume é, como o narrador expressamente explica, que alguns personagens são invisíveis. Inclusive, um dos protagonistas, Levani, amigo da filha desaparecida de Irakli, o pivô do enredo. No filme, Irakli parte numa viagem pelo interior do país, a Geórgia, para tentar encontrar a filha fotógrafa que sumiu durante um projeto para registrar campos de futebol em vilarejos rurais. Como são companheiros de viagem, os dois conversam bastante entre si, portanto há muitas cenas em que Irakli fala olhando para o banco ao lado em seu carro, onde supostamente está Levani. Mas, como ele é invisível, apenas ouvimos a sua voz respondendo, sem vê-lo. Durante a jornada, Irakli encontra algumas outras pessoas invisíveis, não todas, o que afasta a possível explicação de que Levani tem essa condição porque ele não é muito útil na busca.
Registro sereno
O diretor Alexandre Koberidze constrói um filme longo, de três horas de duração, com várias cenas que não estabelecem progressos na jornada de Irakli. Aqui e ali, ele pergunta se alguém viu sua filha, e todos respondem que não. A procura se mostra infrutífera, e essa grande sucessão de trechos reforça essa impressão.
Embora abra mão da narrativa, Koberidze não dispensa a continuidade entre os planos. Os registros, quase aleatórios em relação ao enredo, costumam acompanhar marcações que mantêm o raccord. O carro de Irakli, por exemplo, é muito usado nesse sentido. O veículo aparece em um trecho se movendo, e o plano seguinte dá continuidade a esse deslocamento. E, da mesma forma, outros elementos se servem para tal função, como animais, pessoas etc.
Por fim, ao encerrar o filme sem levar para as telas a conclusão da jornada, Koberidze confirma o que a serenidade das tomadas e a música inspiradora indicam durante todas as três horas. Ou seja, que o que vale é a jornada e não destino. A busca pela filha foi, assim, uma viagem prazerosa, que permitiu captar a beleza em tudo o que foi visto. Talvez cumprindo, desta forma, o projeto que a filha iniciou.
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Ficha técnica:
Folha Seca | Xmeli Potoli | 2025 | 186 min. | Alemanha, Geórgia | Direção: Alexandre Koberidze | Roteiro: Alexandre Koberidze | Elenco: David Koberidze, Otar Nijaradze.



