Primeiro longa da diretora lisboeta Denise Fernandes, Hanami tem título de filme japonês. Quem o menciona é um personagem com pequena participação, um geógrafo nipônico que estuda os vulcões da terra onde mora a protagonista Nana (Sanaya Andrade). Numa conversa em que o geógrafo fala em japonês e o tio de Nana em português (de Cabo Verde), e se entendem perfeitamente, ele explica que o termo significa “chuva de flores”. Refere-se às famosas cerejeiras na primavera do Japão, mas ali a lembrança surge das cinzas do vulcão. Um pouco depois, após fazer um discurso de despedida num enquadramento que inclui apenas as sombras dos moradores locais, explodem no céu fogos de artifício – cujo termo em japonês é hanabi (flor de fogo). Esse fluxo de pensamento exemplifica a condução narrativa desta obra que trafega entre o naturalismo e a poesia.
O prólogo navega pela poesia ao explicar o nascimento de Nana e os motivos que fizeram sua mãe emigrar para outro país, deixando a filha bebê aos cuidados da avó. A fotografia belíssima, característica do cinema português, embala esses momentos. Após o título do filme, entra uma característica mais naturalista, para contar o crescimento da personagem principal, até a sua adolescência. Mas, ainda com aberturas para o poético, como no trecho em que as crianças brincam nas areias entre as rochas.
A autenticidade poética acomoda essa fase de desenvolvimento da protagonista. Os trechos que retratam o cotidiano na pequena vila africana se alternam com outros que parecem saídos de um sonho (como o encontro com o geógrafo japonês). São como lembranças que um adulto guarda no seu consciente e no seu inconsciente desse tempo em que falham as convicções sobre o que é real e imaginado. O importante é que elas sedimentam o sentimento de pertencimento de Nana.
A terra e o sangue
Assim, quando sua mãe retorna com os outros parentes que também emigraram para uma visita de férias, não há nenhum vínculo de relacionamento entre as duas. O reencontro, por isso, é filmado num enquadramento em que está a mãe e apenas o reflexo de Nana no espelho. Na loja, a tentativa de reaproximação parece insuficiente, mas, quando a filha adoece, a mãe cuida dela. As duas dançam na festa de despedida, mas talvez seja o último momento das duas juntas na vida, pois as raízes de Nana estão fincadas na África.
Hanami explora o naturalismo poético para expressar, mais que uma narrativa, um sentimento, no qual a conexão com a terra é mais forte que com o sangue.
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Ficha técnica:
Hanami | 2024 | 100 min. | Suíça, Portugal, Cabo Verde | Direção: Denise Fernandes | Roteiro: Denise Fernandes, Telmo Churro | Elenco: Sanaya Andrade, Daílma Mendes, Alice Da Luz, Nha Nha Rodrigues, Yuta Nakano, João ‘Galinha’ Mendes, Cláudio Do Canto, Fábio Barros.
Distribuição: Imovision.
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