Estreia da atriz Angela Gulner como roteirista e diretora, Harpia: Presença Maligna coloca a instigante dúvida no público, que não sabe se está diante de um filme de terror psicológico ou sobrenatural.
Harper (Katie Parker) chega com a sua bebê à casa da sua mãe Sadie (Patrick Heaton) para passar uns dias. Esse retiro segue as ordens da assistência social, porque Harper se colocou em situação de perigo com a filha durante uma noite. Mas, logo Harper presencia uma sucessão de fenômenos estranhos. A maioria deles envolvendo um corvo, que aparece em vários lugares.
A narrativa do filme se fixa na perspectiva de Harper. Assim, o espectador compartilha o que ela vê, e tende a acreditar que uma força sobrenatural está presente na casa. Mas, Sadie, sempre muito dura com Harper, refuta cabalmente essa hipótese. Para ela, é tudo criação da mente de Harper, que se encontra psicologicamente instável.
As cenas de terror envolvendo o corvo são bem aterrorizantes, em especial aquelas com partes do corpo dele saindo de lugares tão inesperados quanto a torneira de uma banheira ou a boca da protagonista. Essas imagens são adequadas para um filme com orçamento limitado, pois não precisam de efeitos especiais muito elaborados. Até quando se arrisca, ao criar visões de uma criatura antropomórfica de ave com humano, o resultado funciona.
Harpia
O título em português, indevidamente, tenta ser mais significativo do que o original. O nome original em inglês, “beldham”, pode ser traduzido como “velha” ou mesmo “bruxa”. Já “harpia” é a maior ave de rapina do Brasil. Além disso, significa também a mitológica criatura com corpo de ave de rapina e rosto de mulher. Mas, a criatura que aparece de relance em alguns momentos do filme possui rosto de pássaro.
Adicionalmente, ela representa o remorso, o que levanta a suspeita da tentativa de a tradução ser superior ao original. Contudo, desconfio que a escolha por esse título vem da simplória aproximação entre Harpia e Harper, o nome da personagem principal do filme.
Spoilers adiante
A revelação da verdade, como em O Sexto Sentido (1999), faz mais do que a transição do terror sobrenatural para o psicológico. Chega com ternura, para esclarecer o pensamento racional e aquietar os corações em conflito.
Harper, ou melhor, Harriet, recupera sua lucidez, ainda que momentânea, ao revisitar o cômodo onde ficava o berço. Ela nunca superou a morte de seu bebê, que foi enterrado no quintal da casa para ainda permanecer próximo dela. Mesmo com a idade avançada, ainda carrega uma boneca pensando que é a filhinha que perdeu. Enquanto isso, a filha mais velha, que sempre foi deixada de lado após o nascimento do bebê, ainda hoje suplica por sua atenção. O corvo ficou estigmatizado como o símbolo desse trauma, porque Harriet deixara uma almofadinha de pano com o formato do pássaro no berço.
A cena final tem uma abertura para o suspense, pois certamente Harriet não está totalmente curada. Mas, Harpia: Presença Maligna se encerra num clima de tranquila reconciliação, incomum para um filme de terror. Marca uma estreia bem consistente para Angela Gulner.
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Ficha técnica:
Harpia: Presença Maligna | The Beldham | 2024 | 85 min. | Estados Unidos | Direção: Angela Gulner | Roteiro: Angela Gulner | Elenco: Patricia Heaton, Katie Parker, Corbin Bernsen, Emma Fitzpatrick, Angela Baumgardner, Sabreena Iman, Thesa Loving, Hannah Reese.
Distribuição: HBO Max.



