Em Horas Amargas (The Plough and the Stars, 1936), John Ford olha para suas raízes irlandesas sem deixar de questionar a violência da guerra. O roteiro enxuto se baseia na peça de Sean O’Casey e cobre a Proclamação da República da Irlanda em 1916. Na ocasião, o Conselho Militar da Irmandade Republicana Irlandesa proclamou a independência da Irlanda em relação à Grã-Bretanha. Contudo, logo após a emissão do documento, o exército inglês invadiu Dublin para derrubar os insurgentes. O título original refere-se à bandeira do Irish Citizen Army (Exército do Cidadão Irlandês).
A luta pela independência é uma questão de honra para os irlandeses como Jack Clitheroe (Preston Foster), que se une ao Conselho Militar ao receber o posto de comandante. Mas, sua esposa Nora (Barbara Stanwyck) é contra sua disposição irredutível de enfrentar os ingleses. Para ela, o mais importante é ter o marido vivo em casa. Os conflitos começam e Nora desesperadamente entra na linha de frente para ficar ao lado do marido, e garantir que ele sobreviva nessa batalha entre forças nada equivalentes.
O enredo em si não empolga muito. O debate entre as posições antagônicas do casal tem argumentos levantados, mas não há um lado vencedor. John Ford, no entanto, parece preferir a posição da mulher, já que enfatiza o quanto ela sofre de preocupação quando o marido vai para o confronto. E é dela a última frase do filme, que rebate o dever de lutar pela independência que Jack defende pelo efeito do drama das viúvas que resultam das guerras.
Fordiano por excelência
Sob o aspecto formal, Horas Amargas leva John Ford de volta à Irlanda de O Delator (The Informer, 1935). Porém, numa escala menor, principalmente em termos de desenho de produção. O filme recria Dublin em estúdio, em versão reduzida, com poucas cenas externas que Ford aproveita para enquadramentos meticulosos. Nas cenas internas, o diretor joga com o expressionismo. A maioria delas ocorre durante a noite, o que o possibilita a utilizar muitas sombras (por exemplo, no ato da assinatura da proclamação).
O humor, como é de praxe em Ford, marca alguns momentos deste filme essencialmente triste. O principal motor cômico é o personagem beberrão e briguento interpretado por Barry Fitzgerald, ator recorrente na filmografia fordiana.
Horas Amargas, enfim, pode soar pequeno e desinteressante para o público em geral. Mas, para os fãs de John Ford, agrada por concentrar o seu modo de fazer filmes.
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Ficha técnica:
Horas Amargas | The Plough and the Stars | 1936 | EUA | Direção: John Ford | Roteiro: Dudley Nichols | Elenco: Barbara Stanwyck, Preston Foster, Barry Fitzgerald, Denis O’Dea, Eileen Crowe, F.J. McCormick, Una O’Connor, Arthur Shields, Moroni Olsen, J.M. Kerrigan, Bonita Granville, Erin O’Brien-Moore.