Luciano Vidigal dirigiu um dos episódios do filme 5x Favela: Agora por Nós Mesmos (2010). 14 anos depois, com o seu primeiro longa solo, Kasa Branca, tornou-se a primeira pessoa negra a vencer o Troféu Redentor de melhor direção de longa-metragem de ficção na competição principal do Festival do Rio 2024. Uma conquista emblemática, muito ligada ao próprio filme, uma produção realizada por negros.
Kasa Branca acompanha Dé (Big Jaum), um adolescente negro da periferia da Chatuba, no Rio de Janeiro. Ele cuida sozinho da sua avó, Almerinda, que está com Alzheimer em fase terminal. Por isso, não consegue trabalhar e não paga o aluguel há meses. Para comprar os medicamentos para a avó, ele conta com a ajuda dos amigos Adrianim (Diego Francisco) e Martins (Ramon Francisco), que também não têm dinheiro, mas tentam dar um jeito.
A prévia rodagem de Luciano Vidigal permite que ele apresente uma direção segura. Já na abertura, ele transita entre o plano fechado dentro do banheiro onde Dé dá um banho em sua avó e a tomada externa da casa em plano geral, quando a médica do SUS sentencia o diagnóstico de que não há nada mais a fazer. A casa, aliás, é um elemento importante para o enredo. Significa o gargalo financeiro que deixa Dé desesperado, e o local que servirá literalmente de palco para a solução. Os planos escolhidos criteriosamente e o uso restrito da câmera na mão (somente quando a cena pede, e não como um recurso para facilitar as filmagens) indicam o preparo do diretor. Chama a atenção os recorrentes trechos que captam o trem que passa pelo local, assim como as tomadas que registram do alto a paisagem suburbana.
Naturalismo e outras tendências
O filme segue a linha do naturalismo, filmando em locações e com atores ligados ao entorno da história. Neste caso, os intérpretes dos personagens principais são rapazes que vieram da periferia, como o próprio diretor. Portanto, autenticidade não falta a Kasa Branca. Porém, os ajustes de cores na pós-produção colocam um toque de artificialismo que destoa dessa sintonia. O uso da música para assinalar qual o tom da cena também atrapalha. Parece um recurso desnecessário e que tende para o sentimentalismo forçado. Em contrapartida, o filme desperdiça emoções que poderiam fluir espontaneamente, como a ansiedade se o rapper vai cumprir a sua promessa e as desilusões amorosas de dois dos protagonistas.
Algumas tendências do cinema brasileiro contemporâneo marcam presença neste longa. Entre elas, os trechos musicais que se alongam além do necessário para a narrativa a fim de divulgar algum artista. Neste caso, com uma certa ligação com a trama, pois a solução para angariar algum dinheiro para ajudar Dé vem da disposição de um rapper do bairro, que alcançou fama, em se apresentar na casa do garoto e da avó (local batizado de Kaza Branca). Outra tendência é levantar bandeiras. Quanto à ancestralidade africana, o filme trabalha bem, mas a cena de sexo a três numa caixa d’água improvisada de piscina – com um rapaz, uma moça e um rapaz gay – parece existir somente para que o filme seja considerado inclusivo.
Kaza Branca certamente revela o potencial de um diretor talentoso. No entanto, aqui sufocado pela urgência de canalizar suas vivências e crenças. Em futuros trabalhos menos pessoais, Luciano Vidigal poderá exercitar sua inclinação formalista.
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Ficha técnica:
Kasa Branca | 2024 | 95 min. | Brasil | Direção: Luciano Vidigal | Roteiro: Luciano Vidigal | Elenco: Big Jaum, Teca Pereira, Diego Francisco, Ramon Francisco, Gi Fernandes, Babu Santana, Roberta Rodrigues, Otavio Muller, Guti Fraga, Dj Zullu, L7nnon.
Distribuição: Vitrine Filmes.



