Lições de Liberdade equilibra três tipos de cinema: o filme político, o filme com animais, e o filme sobre professores.
A dimensão política resulta do momento e local em que se insere o seu enredo. Baseado em eventos reais contados no livro do próprio protagonista Tom Michell, o roteiro conta a experiência desse professor inglês, vivido por Steve Coogan, que se muda para a Argentina em 1976, ano do golpe de estado que instituiu a ditadura militar no país. Na trama, ele testemunha os agentes do governo levarem Sofia (Alfonsina Carrocio), que trabalha na escola onde leciona. Arrependido por não ter feito nada para impedir, nem mesmo protestar, ele tenta de alguma forma ajudar a avó dela – Maria (Vivian El Jaber), que também é funcionária da escola – a encontrá-la.
Enquanto o título brasileiro reflete esse aspecto político, o nome original explora o filme com animais. Neste caso, um pinguim que Tom salva de um atolamento em óleo na praia. Na verdade, ele faz isso só para agradar uma mulher que ele queria levar para a cama. Porém, o pinguim o seguirá por toda parte, e ele acaba levando-o para o seu quarto na escola.
Por fim, como novo professor de inglês em uma escola de elite, Tom logo percebe que sua turma está totalmente desinteressada nas suas aulas. Mas, ele não está nem aí, porque ele próprio também não liga. Opostamente diferente do John Keating de Robin Williams em Sociedade dos Poetas Mortos (Dead Poet’s Society, 1989), ele precisa mudar a si mesmo antes de inspirar os seus alunos.
A paixão pela vida
Lições de Liberdade reúne essas três dimensões para construir o arco do protagonista. Após uma tragédia familiar, Tom perdeu a paixão pela vida. Prefere empurrar tudo com a barriga, sem se envolver com nada e com ninguém. Eis que a inusitada chegada do pinguim em seu caminho o transforma. Aos poucos, ele cria uma afeição pelo bicho. Por isso, desiste de entregá-lo ao zoológico. Diante das deprimentes jaulas no porão do local, faz a conexão com o sofrimento que Sofia deve estar passando nas mãos dos agentes militares.
Dessa forma, a trama consegue, convincentemente, apresentar o novo despertar para a vida do protagonista. Nasce em Tom uma revolta contra os abusos desse regime, urgindo-o a agir de alguma forma. Nesse processo, passa a inspirar os seus alunos através de poemas de protesto contra injustiças. Consequentemente, se torna um professor melhor – e uma pessoa melhor, também.
A direção
O experiente diretor Peter Cattaneo – de Ou Tudo ou Nada (The Full Monty, 1997) e Unidas pela Esperança (Military Wives, 2019) – enfatiza as nuances dramáticas da narrativa. Usa a trilha musical em quase todas as cenas, reforçando o tom de cada momento. Ao mesmo tempo, explora também o poder das imagens. Por exemplo, o desinteresse pela vida do personagem principal fica evidente quando ele faz palavras cruzadas durante a aula. Da mesma forma, os diálogos também ajudam a contar o enredo. É o que Peter Cattaneo faz nas conversas de Tom com o colega professor. O diretor, enfim, utiliza recursos variados para desenvolver com solidez o arco do protagonista.
Assim, Lições de Liberdade reúne habilmente narrativas conhecidas dos três tipos de filme que aborda. Dessa combinação, opta pelos resultados que melhor funcionam. Por isso, apesar de lidar com a ditadura, o tom é leve, mais típico dos filmes com animais, e ainda inclui as lições edificantes de uma história sobre professor e alunos.
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Ficha técnica:
Lições de Liberdade | The Penguin Lessons | 2024 | 111 min. | Espanha, EUA, Reino Unido | Direção: Peter Cattaneo | Roteiro: Jeff Pope | Elenco: Steve Coogan, Jonathan Pryce, Bruno Dias, Julia Fossi, Vivian El Jaber, Alfonsina Carrocio, David Herrero, Björn Gustafsson, Brendan McNamee.
Distribuição: Diamond Films.



