Manas

Título original: Manas

Direção: Marianna Brennand

Ano de lançamento: 2024

Data de estreia no Brasil: 15/05/2025

Gênero:

Mais informações na ficha técnica abaixo do texto

Avaliação: 9/10

Manas, primeiro longa de ficção de Marianna Brennand, vem conquistando o apoio de artistas internacionais. Nos últimos dias, Julia Roberts se juntou ao coro de elogios dos apoiadores Walter Salles, Jean-Pierre Dardenne, Luc Dardenne e Sean Penn, creditados como produtores do filme. Com essa visibilidade, conseguiu entrar na lista dos filmes pré-selecionados para representar o Brasil na disputa pelo próximo Oscar de Melhor Filme Internacional. A escolha acabou indo para O Agente Secreto, mas, independente dos méritos do filme de Kleber Mendonça Filho, ainda inédito no circuito nacional, Manas provavelmente teria mais a dizer sobre o Brasil para o mundo.

O longa de Marianna Brennand revela uma realidade devastadora. A história se passa na Ilha do Marajó, no Pará. Numa comunidade ribeirinha, vive Marcielle (Jamilli Correa, que não tinha experiência em atuação). Chamada de Tielle pela família e amigos, ela é uma menina de 13 anos que mora com o pai Marcílio (Rômulo Braga), a mãe grávida Danielle (Fátima Macedo), um irmão mais velho e uma irmã mais nova. Uma outra irmã, a primogênita, já não vive ali. “Teve a sorte de ir embora com um homem bom, que lhe dava muitos presentes.”, acredita a mãe.

Na escola, uma das colegas ostenta um barrigão enorme – já deve estar grávida há uns 9 meses. Na vendinha do bairro, a dona diz a Marcielle que, se ela subisse na balsa, teria dinheiro para comprar as coisas que deseja. É o que costuma fazer a melhor amiguinha dela.

Nesse cenário, parece normal que meninas de 13 anos ou até menos subam na balsa para fazer favores a homens adultos em troca de alguns poucos trocados. O filme nem menciona o termo “prostituição infantil”. Primeiro, porque não precisa, está evidente. Segundo, e mais grave, porque parece que ali isso nem é crime.

Mal-estar

Mas, um outro costume mal velado incomoda ainda mais. À primeira vista, Tielle vive numa família harmoniosa. Todos ajudam na coleta e na preparação do açaí, que garante o mínimo de ganho para se sustentarem e ainda lhes serve de alimento. O pai, especialmente, demonstra bastante carinho com os filhos.

Esta impressão positiva, sentida por Marcielle e também pelo espectador, muda de figura e revela um cenário de horror. A desconfiança sobre as intenções do pai começa quando ele pede que a filha troque de lugar com a mãe grávida na cama do casal. Numa cena posterior, a mãe observa com desgosto o pai brincando com as filhas no rio.

E o que a protagonista e o público mais temem começa a se concretizar quando o pai pede que Tielle o acompanhe sozinha numa caçada. A diretora Marianna Brennand filma esse ato repugnante com maestria. Sabiamente, deixa a violência na elipse, mostra apenas o pai sussurrando no ouvido da menina e corta para um close do rosto aterrorizado dela em outro local, no rio, como se tentasse lavar com a água a agonia que acaba de sofrer. O mal-estar que a sequência provoca chega a ser sufocante. Um outro plano similar a este no rio se repete no filme, revelando a constância do crime.

Tielle conta, indiretamente, o que aconteceu para a mãe, mas recebe a resposta de que não há nada a fazer. A própria mãe teve o mesmo problema e foi expulsa de casa ao tentar mudar o que acontecia. A tia da venda diz a Marcielle que ela não é a única. São momentos tristes estes, que a ausência de trilha musical acentua, porque essa situação descreve a realidade de um costume velado que aflige gerações de mulheres.

Agentes de mudança

Como drama e filme-denúncia, Manas poderia se resumir a esse terrível arco de Marcielle. Porém, Marianna Brennand quer algo mais, quer ser uma força de mudança. Entra na história, então, a agente da Polícia Federal vivida por Dira Paes, que indica a via legal para essas meninas agredidas tentarem sair dessa situação. Mas, além disso, caso a lei não resolva o costume, o filme apresenta uma outra solução, mais desesperada. Os olhares de Tielle e sua irmã caçula diante da mãe, na cena de encerramento, significa um apelo para a nova geração colocar um fim a essa repugnante tradição.

Essa conclusão reverbera no belíssimo plano de abertura do filme. Na abertura de Manas, a câmera coloca no quadro, do lado esquerdo, a janela que mostra Marcielle no corredor elevado da palafita onde mora sobre o rio. É o retrato do seu estado de pureza. Do lado direito do quadro, está a parede e a porta, coberta por uma cortina vermelha, simbolizando a violência à espreita. A passagem da mãe pela cortina em direção à filha indica o seu papel como facilitadora dos abusos, por sua omissão.

Manas consegue contundir sem deixar de ser sensível. A direção segura impressiona, ainda mais porque é a primeira ficção de uma diretora que realizou até agora dois documentários.

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Ficha técnica:

Manas | 2024 | 106 min. | Brasil, Portugal | Direção: Marianna Brennand | Roteiro: Felipe Sholl, Marcelo Grabowsky, Marianna Brennand, Antonia Pellegrino, Camila Agustini, Carolina Benevides | Elenco: Jamilli Correa, Fátima Macedo, Rômulo Braga, Dira Paes, Emilly Pantoja, Samira Eloá, Enzo Maia, Gabriel Rodrigues, Ingrid Trigueiro, Clébia Souza, Nena Inoue e Rodrigo Garcia.

Distribuição: Paris Filmes.

Trailer:

Onde assistir:
Jamilli Correa em "Manas" (divulgação)

Outras críticas:

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