O diretor Josh Safdie repete em seu filme solo Marty Supreme o ritmo frenético de Joias Brutas (Uncut Gems, 2019), que ele codirigiu com o irmão Benny Safdie. Mas, desta vez puxa para o tom da comédia, apostando na estrela de Timothée Chalamet para que o público torça pelo protagonista, mesmo que ele não mereça empatia. O personagem do filme, Marty Mauser, tem como inspiração o prodígio do tênis de mesa Marty Reisman, que ganhou fama nos anos 1950. Chalamet está bem parecido com o jogador, mas o roteiro é essencialmente ficcional.
Em sua primeira participação no campeonato mundial de tênis de mesa, o jovem Marty Reisman derrota o multicampeão Béla Kletzki (Géza Röhrig), mas na final sofre uma derrota esmagadora para o japonês Koto Endo (Koto Kawaguchi). Extremamente autoconfiante, Marty tem certeza de que vai derrotar esse adversário no torneio do ano seguinte no Japão. Mas, para chegar lá, ele precisa arrecadar o dinheiro suficiente para a viagem. Além disso, suas atitudes insolentes, como intimidar o presidente da federação internacional de tênis de mesa e se hospedar à revelia num hotel caro, acarretam numa pesada multa.
O filme, então, acompanha essa corrida frenética atrás dos fundos necessários. Sem medo nenhum de quebrar a cara, ele se atirou em cima da atriz veterana Kay Stone (Gwyneth Paltrow), até conseguir levá-la para a cama. Agora, ele tenta tirar proveito do fato de o marido dela ser um empresário milionário. Mas, no quesito relacionamento feminino, ele ainda precisa lidar com o fato de ter engravidado sua amiga de infância Rachel Mizler (Odessa A’zion), que é casada. Além disso, Marty está sempre em atrito com a sua mãe.
Longe das mesas
O filme consegue divertir quando Marty joga tênis de mesa. Graças a muito treino por parte do ator Timothée Chalamet, as disputas parecem bem reais. Um dos melhores momentos é aquele em que Marty e Kletzki resolvem brincar durante o jogo acertando a bola com vários truques acrobáticos. Após o torneio mundial, eles levam essa ideia adiante e se apresentam nos intervalos dos shows dos Globetrotters (time de basquete americano que roda o mundo com seu espetáculo de firulas). A parte final, que traz a aguardada revanche entre Marty e Endo também vale o ingresso. Porém, Josh Safdie não tem intenção de fazer um filme de esportes.
E é aí que o filme se engasga. As situações de ação parecem gratuitas. Marty pratica um assalto a mão armada (embora ele pense que não foi assim), e precisa fugir da polícia. A banheira de um hotel vagabundo onde se hospeda despenca em cima de um hóspede que é um bandido, o que desencadeia uma correria que envolve mais pessoas perigosas. Tem até um momento em que ele e o amigo dão uma de hustlers para praticar golpes como aqueles em A Cor do Dinheiro (The Color of Money, 1986). Mas, parece que outro filme de Martin Scorsese seria o melhor modelo para Safdie: Depois de Horas (After Hours, 1985), cujo protagonista também entra em uma enrascada atrás da outra. Porém, nesse filme, Griffin Dunne é um personagem com boas intenções, o que não se pode afirmar de Marty Mauser.
Mau caráter
As situações se tornam malucas, beirando o fantasioso, com Marty tomando as piores decisões possíveis. A correria desenfreada acaba lembrando o que acontece em Anora (2024), de Sean Baker. São dois filmes que demandam que o espectador embarque nessa montanha-russa de acontecimentos, equilibrando a comédia com a tensão, o que não é tarefa fácil de se conseguir. E, aqui, com o agravante de contar com um protagonista antipático. Ele sofre demais, mas seus objetivos são egoístas. Talvez por isso, na conclusão, ele se redima, ao se deparar com a responsabilidade de ser pai, o que não é um motivo à altura de tudo que ele enfrentou.
Algumas decisões estilísticas de Josh Safdie funcionam, outras não. As imagens de espermatozoides em trabalho de fecundação durante os créditos iniciais são uma opção criativa para revelar a consequência do sexo casual que o filme mostrou um pouco antes. Mas, o filme traz trechos aleatórios, que não contribuem para a narrativa, como a história do mel que Kletzki usou para ajudar os companheiros judeus no campo de concentração – o que é um problema num filme com duas horas e meia de duração. Já as várias canções dos anos 1980 que entram de forma abrupta contribuem para o tom empolgante, muitas vezes frenético, e a tensão parece aumentada com os close-ups próximos que cortam a parte superior da cabeça dos personagens.
Essencialmente, Marty Supreme empolga no começo e no fim, quando dá atenção aos jogos de tênis de mesa e esboça um protagonista no estilo Han Solo, ou seja, malandro, mas charmoso e uma boa pessoa. Porém, tudo o que acontece no meio do filme estraga essa imagem e escancarando que o personagem é um mau caráter individualista e não tão inteligente quanto pensa ser.
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Ficha técnica:
Marty Supreme | 2025 | 150 min. | EUA, Finlândia | Direção: Josh Safdie | Roteiro: Josh Safdie, Ronald Bronstein | Elenco: Timothée Chalamet, Odessa A’zion, Gwyneth Paltrow, Fran Drescher, Sandra Bernhard, Abel Ferrara, Tyler the Creator.
Distribuição: Diamond Films.



