Não se deixe enganar pelo formato de Memórias de um Caracol. Apesar de ser uma animação feita em stop motion – magistralmente, aliás – o filme trata de temas maduros e não é recomendado para crianças. Um dos longas de animação mais tristes já realizados, o título concorreu ao Oscar na sua categoria em 2025 (e perdeu para o também excelente Flow).
Uma vida de desgraças
A tristeza no filme brota da vida da protagonista Grace Pudel, conforme ela a relembra em flashback. A recordação começa lá no início, quando Grace e seu irmão gêmeo Gilbert ainda estão no útero da mãe. A primeira das muitas tragédias que acontecem com Grace começa aí, com a morte da mãe no parto. Mas, são os seus lábios leporinos e a saúde frágil que a condicionam a ser uma pessoa fraca, sempre precisando da proteção do irmão. Por isso, Grace se identifica com o caracol, o molusco que se encolhe diante do perigo. Sua admiração pelo bicho a leva a ter uma criação de caracóis e a colecionar todos os tipos de objetos com a sua forma.
O pai dos gêmeos, que ficara paraplégico em uma tragédia anterior, acaba falecendo. Grace e Gilbert são então adotados por famílias diferentes, sem poderem se encontrar novamente. Um casal de swingers adota Grace, mas Gilbert tem um destino pior: acaba numa família de fanáticos religiosos que o sujeita ao trabalho escravo.
Sem a companhia, e a proteção, do querido irmão, Grace se torna uma acumuladora solitária e melancólica. Só não se afunda completamente porque faz amizade com Pinky, uma senhora cheia de vida (que lembra a Maude de Ensina-me a Viver [1971, Hal Ashby]). É essa sua única amiga quem lhe dá apoio quando Grace entra num casamento esquisito. Porém, o filme começa com a morte de Pinky, e o espectador fica em dúvida como a protagonista poderá sobreviver sozinha em meio a tanta tristeza.
Sombrio com uma luz no final
O diretor e roteirista de Memórias de um Caracol, o australiano Adam Elliot, fez antes o longa Mary e Max – Uma Amizade Diferente (2009), e alguns curta-metragens, utilizando a mesma técnica de stop motion com massa de modelar. O resultado beira a perfeição, porém, o que mais chama a atenção é que tudo combina com a trama. Os personagens não apresentam aquela costumaz fofura para atrair o público. Já na abertura, com a câmera viajando sobre um acúmulo desesperador de objetos, fica evidente o tom sombrio, que será confirmado pela quase total ausência de alívio cômico, exceto quando conta o passado maluco de Pinky. Além disso, várias imagens simbólicas, do início até os últimos quadros do filme, realçam a narrativa deixando-a ainda mais dramáticas.
E, justamente por ser tão pesado, cai bem o final esperançoso e confortador. A carta que Pinky deixa para Grace vale mais do que a vasta obra de autoajuda disponível por aí. E, ao quebrar o casco que a própria protagonista criou e que a aprisionava, uma atitude positiva nasce, abrindo as portas para a coincidência no estilo Frank Capra quando ela comparece no tribunal por furtar objetos com caracóis. Um desfecho acertado, que não tem cheiro de oportunismo comercial. Pelo contrário, que é essencial para entregar uma bem-vinda mensagem edificante.
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Ficha técnica:
Memórias de um Caracol | Memoir of a Snail | 2024 | 94 min. | Austrália | Direção: Adam Elliot | Roteiro: Adam Elliot | Vozes Originais: Jacki Weaver, Sarah Snook, Charlotte Belsey, Agnes Davison e Mason Litsos.
Distribuição: Mares Filmes.



