A trajetória do documentário Mr. Nobody Against Putin chama a atenção por si só. O cineasta americano David Borenstein, radicado em Copenhage, reuniu o material gravado por um professor de uma escola em uma pequena cidade russa que escancara a falaciosa propaganda belicista que Vladimir Putin divulga para justificar a guerra na Ucrânia.
Pavel Talankin, esse professor que está creditado como co-diretor do filme, tinha o cargo de coordenador de eventos na escola. Entre as suas funções, se inseria a de videomaker. Por isso, era comum ele andar por todas as áreas filmando tudo com a sua câmera. Sempre esteve muito animado com seu trabalho. Gostava bastante da interação com os alunos, e estes de interagirem com ele.
Porém, em fevereiro de 2022, começou a guerra da Rússia contra a Ucrânia e Putin ordenou várias ações nacionalistas nas escolas que, no fundo, serviam como uma lavagem cerebral para as crianças aprenderem que o governo ucraniano é inimigo e a ação militar russa visa libertar o povo de lá. Com o passar do tempo, esse intervencionismo na educação se intensifica. Os alunos precisam repetir as lições distorcidas e, talvez no momento mais extremo, militares até colocam armas nas mãos deles.
Diferente das gerações anteriores, como a da sua mãe e do colega professor de História, Pavel não engole essa propaganda patriota, presente há mais de um século na Rússia. Quer protestar contra essa abordagem governista, mas o que um professor numa cidade de apenas 10.000 habitantes – Karabash, considerada uma das mais poluídas do mundo – poderia fazer além de ostentar uma pequena bandeira a favor da democracia em sua sala?
No more Mr. Nobody
Bem, o que ele fez foi gravar evidências dessa propaganda de Putin, conforme essas ações aconteciam na sua escola. Além disso, captou o efeito na população local, especialmente nas crianças e jovens, desse processo e da própria guerra que enviou jovens para o front de batalha.
Mas, o que faz realmente a diferença neste filme, a ponto de vencer prêmios importantes no BAFTA Awards e no Sundance Film Festival, entre outros, e ser indicado ao Oscar de melhor documentário, é o tom irreverente e íntimo que pertence naturalmente a Pavel Talankin e que David Borenstein conseguiu preservar, e destacar, na obra.
Quebrando as expectativas, Mr. Nobody Against Putin não é um documentário sisudo e pesado, o que seria uma consequência orgânica de seu tema. Pelo contrário, Pavel vira a câmera para si, comenta verbalmente o que está pensando, escancara a sua vida pessoal, a sua mãe, o relacionamento de anos com alguns alunos. Alheio à propaganda governista, é capaz de evidenciar o seu olhar crítico ao que acontece ao redor, inclusive com um inesperado viés brincalhão.
Apesar dessa leveza, Pavel assume uma atitude corajosa. Ele representa uma minoria, como o seu filme revela, pois a maior parte se deixa influenciar pela versão de Putin, ou prefere fingir que acredita nela. Afinal, Pavel assume riscos perante um governo que condena traidores. E precisa fugir do país, porque deixou de ser um Mr. Nobody.
___________________________________________
Ficha técnica:
Mr. Nobody Against Putin | 2025 | 90 min. | Dinamarca, República Tcheca, Alemanha, Reino Unido | Direção: David Borenstein, Pavel Talankin | Roteiro: David Borenstein | Com Pavel Talankin.



