O título nacional de Nino de Sexta a Segunda remete a Cléo das 5 às 7, a obra-prima de Agnès Varda lançada em 1962. As tramas dos dois filmes se assemelham. O primeiro acompanha Nino (Théodore Pellerin) durante quatro dias, logo depois de ele receber seu inesperado diagnóstico de câncer. No segundo, Cléo anda por Paris nas duas horas que antecedem os resultados de seus exames para descobrir se tem a doença. Os enredos podem estar próximos, mas o talento da estreante em longas Pauline Loquès está a quilômetros distante da genialidade de Varda.
Durante o filme de Varda, Cleo se humaniza. Os resultados dos exames nem são revelados, o que importa é que essa possibilidade de morrer deixa essa celebridade tão vulnerável quanto qualquer pessoa comum. No caso de Nino, seu diagnóstico positivo é que engatilha a trama. O tratamento do câncer deve se iniciar o quanto antes. Ele recebe a notícia na sexta, e começa a quimioterapia na segunda-feira. Durante esse período, fica atordoado.
As missões de Nino
Nesse processo, Nino tem duas missões: conseguir uma pessoa para acompanhá-lo na sessão de quimio e coletar seu esperma para usar no futuro caso fique estéril. Como elemento circunstancial dramático, ele faz 29 anos no sábado. Por isso, ao visitar a mãe (Jeanne Balibar) na sexta à noite, eles comem um bolo de comemoração. Mas, Nino não tem coragem de contar para ela que foi diagnosticado com câncer.
No sábado à tarde, ao deixar um recado para sua ex-namorada (Camille Rutherford), esbarra com ela. Eles conversam, porém, ele não fala sobre sua doença. À noite, estraga a festa surpresa que seu melhor amigo Sofian (William Lebghil) preparou para ele. Depois de muita bebida, consegue revelar para ele sobre o câncer e o tratamento.
O enredo encontra espaço para inserir um quase interesse romântico. Nino reencontra uma velha amiga chamada Zoé (Salomé Dewaels), uma mãe solteira com um filho. Ela o ajudará com a segunda missão, de uma maneira tremendamente acanhada.
Hesitante
Nino de Sexta a Segunda precisaria de um roteiro e de uma direção muito melhores para dar vida a uma premissa que não tem a potência que pensa ter. O filme não explicita, mas o câncer de orofaringe que atinge o personagem oferece boas taxas de cura. Se o caso de Nino estivesse em estado avançado, o filme teria a obrigação de revelar.
É compreensível que ele fique desnorteado com o diagnóstico, o que explica ele vaguear meio sem rumo pelos dias seguintes, até que um gesto de apoio não-esperado o colocar de volta aos trilhos. Contudo, o filme não consegue aproveitar a dramaticidade desses momentos. Pelo contrário, constrói cenas chatas nas quais o protagonista não tem coragem para contar sobre sua doença. Tudo fica na superfície, quando deveria se aprofundar na angústia de Nino. Fica a sensação de que o filme é mais hesitante do que o seu personagem principal.
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Ficha técnica:
Nino de Sexta a Segunda | Nino | 2025 | 96 min. | França | Direção: Pauline Loquès | Roteiro: Pauline Loquès, Maud Ameline | Elenco: Théodore Pellerin, William Lebghil, Salomé Dewaels, Jeanne Balibar, Camille Rutherford, Estelle Meyer, Victoire Du Bois, Balthazar Billaud, Mathieu Amalric.
Distribuição: Filmes do Estação.



