O Deserto de Akin parte do ineditismo da perspectiva dos profissionais cubanos que chegaram ao Brasil pelo programa Mais Médicos, criado em 2013 para suprir a falta de profissionais em regiões remotas e prioritárias de difícil acesso. Com a eleição do presidente Jair Bolsonaro, os estrangeiros não conseguiram renovar os seus vistos de trabalho e tiveram que sair do país.
O filme acompanha o médico cubano Akin (Reynier Morales), que atende populações de baixa renda no Espírito Santo, inclusive indígenas. O enredo contraria as críticas que os estrangeiros receberam na época por parte das associações da categoria e da população, e afirma, através da narrativa secundária da menina que recupera a visão de um de seus olhos, que o protagonista é indubitavelmente competente.
Já a linha principal do enredo se concentra na vida pessoal desse angolano que se mudou para Havana e agora aposta nessa nova oportunidade no Brasil. Na trama, ele já pegou gosto de morar aqui, e quer expandir seus relacionamentos para além dos colegas de Cuba, como aquele interpretado por Welket Bungué. Assim, conhece Érica (Ana Flavia Cavalcanti) num baile de forró e se encanta por ela. Mas, logo se envolve também com Sérgio (Guga Patriota), amigo dela.
Panfletário
Em seu terceiro longa, o diretor capixaba Bernard Lessa, de A Mulher e o Rio (2019) e A Matéria Noturna (2021), permite que o panfletarismo político atrapalhe a narrativa.
Por exemplo, o caso da menina parcialmente cega soa artificial, forçado na trama para provar a capacidade profissional do protagonista (representando todos os médicos cubanos que vieram para cá pelo programa do governo). Esse detalhe é importante, mas poderia entrar na história de uma forma mais natural.
Da mesma forma, a música tensa que permeia os dias que antecedem a eleição do novo presidente, prenunciando tempos sombrios para Akin, é um elemento pouco criativo. Os simbolismos, então, parecem ainda mais simplórios. Como a cobra que parece cada vez mais ameaçadora conforme a eleição de Bolsonaro se concretiza.
Mais simplória ainda é a metáfora da areia que invade a casa de Erica, indicando que tudo o que foi construído até então acabará com o novo governo. Ou seja, terá o mesmo destino da cidade hoje soterrada pelas dunas, como a personagem informa antes a Akin. O problema adicional desta comparação é que ela se desvincula da premissa principal. Não se trata dos efeitos sofridos pelos profissionais cubanos pelo cancelamento do programa Mais Médicos, mas das possíveis consequências do direcionamento da política de Bolsonaro em relação a outra parcela da população.
Outras bandeiras
Esse desvio também leva ao relacionamento de Akin com Sérgio, pois o conservadorismo das ideias de Bolsonaro pode facilitar a homofobia. Para demonstrar isso, Sérgio é agredido gratuitamente por um eleitor do novo presidente. E não só Sérgio, como Erica também é alvo de agressão, já que o discurso machista também ganha força. Porém, o enredo não desenvolve esse triângulo amoroso, e enfraquece o que poderia ser um belo romance interrompido pelo cancelamento do programa. Isso aconteceria com um parceiro definido, não importa se com Erica ou com Sérgio.
A encenação dramatúrgica também sofre de artificialismo. Isso fica evidente na atuação de Reynier Morales, principalmente na cena em que o colega de Akin o avisa sobre o cancelamento do seu contrato de trabalho. O protagonista não encerra a conversa via telefone com o amigo. Sai de casa e anda atordoado pelas ruas, ao som de um saxofone melancólico e com uma cobra em seu encalço. Essa sensação também impregna o trecho em que ele toma o seu último banho de mar, com uma inadequada música cubana ao fundo, e depois fecha as janelas e a porta de sua casa, numa representação óbvia de sua despedida. Além disso, tem ainda o final menos realista do que deveria ser.
Drama prejudicado
Enfim, por melhores que sejam as intenções dos realizadores, de sensibilizar o público atual e futuro sobre as mudanças concretas e os medos que a eleição de Bolsonaro trouxe ao país, O Deserto de Akin se perde nesse panfletarismo e danifica a força dramática da história do protagonista, que deveria provocar uma forte empatia dos espectadores por todos os médicos que apostaram em uma nova oportunidade de carreira atendendo a uma população carente.
Em suma, o seu panfletarismo que quer levantar várias bandeiras atrapalha a inédita perspectiva do drama dos profissionais cubanos do programa Mais Médicos.
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Ficha técnica:
O Deserto de Akin | 2024 | 78 min. | Brasil | Direção: Bernard Lessa | Roteiro: Bernard Lessa | Elenco: Reynier Morales, Ana Flávia Cavalcanti, Guga Patriota, Welket Bungué, Patricia Galleto.
Distribuição: Retrato Filmes.



