O diretor Daniel Rezende, finalmente, deixa de lado a franquia Turma da Mônica para adaptar o livro “O Filho de Mil Homens”, de Valer Hugo Mãe. O filme se assemelha a uma fábula moderna, por conta da narração literária de Zezé Motta, das incursões fantásticas e dos personagens pitorescos, representantes das características universais que a narrativa trabalha. E, embora filmado em locações, a direção de fotografia de Azul Serra imprime uma textura fantástica, principalmente nas cenas de sonho ou imaginação.
O enredo se divide em episódios, cada um se aprofundando no passado de um dos personagens principais. Nesses segmentos, parece que essas pessoas não têm relação entre si, até porque algumas delas ainda são crianças, mas as conexões são reveladas conforme os segmentos avançam. E elas explicam como elas se tornaram quem são agora.
Crisóstomo (Rodrigo Santoro) é um homem solitário que deseja imensamente ter um filho. O capítulo dedicado a ele (o último) revela o motivo de ele ter se isolado do resto da pequena comunidade onde vive. Camilo (Miguel Martines), um menino órfão encontrado junto ao avô que faleceu, parece ser a resposta para o que Crisóstomo vem pedindo. Porém, para que essa relação dê certo, Camilo precisa desaprender o que lhe foi ensinado.
Isaura (Rebeca Jamir) deve se casar virgem com o pretendente escolhido pela sua família conservadora. Porém, o garoto apressa as coisas e é descartado. Resta à moça aceitar se casar com Antonino (Johnny Massaro), num acordo entre as famílias para que a sociedade possa acomodar esses dois desajustados – no caso do rapaz, por desejar se relacionar com homens.
Esses quatro personagens se agrupam em uma família não tradicional, cujo elo não é sanguíneo nem forçado pelos costumes sociais. O que os une é o mais puro e verdadeiro afeto.
Mensagem e poesia
Ao contar as origens desses protagonistas, o filme desfila uma série de preconceitos e dogmas sedimentados na sociedade que extrapolam o ambiente dessa pequena vila de pescadores em algum lugar do Brasil. Os personagens secundários, agentes de perpetuação dessas atitudes deploráveis representam arquétipos do que existe na humanidade. E nem se pode dizer que se limitam às gerações anteriores, pois o menino Camilo é um exemplo de que os mais novos podem replicar o que lhes foi passado, caso não sejam devidamente reeducados.
A mensagem é clara, porém embalada numa forma poética que evita o panfletarismo escancarado. O diretor e roteirista Daniel Rezende foi bem mais direto em Bingo: O Rei das Manhãs (2017), embora evitasse mencionar o nome verdadeiro do palhaço (Bozo). Ainda que busque a poesia, Rezende deixa evidente o que é real e o que é sonho ou alucinação, exceto pelas sequências de fantasia cósmica de luzes que saem do corpo de Crisóstomo e de uma concha, trechos que conversam com aqueles com o caramujo de O Último Azul, outro filme brasileiro lançado em 2025. Além desses momentos, as borboletas que simbolizam o desejo sexual de Antonino também enriquecem a poesia do filme.
O retorno de Daniel Rezende
Mas, O Filho de Mil Homens incomoda pelos apelos sentimentais fáceis presentes em várias cenas. Entre elas, quando Crisóstomo, Camilo e Isaura cospem as cascas de jabuticaba, e o abraço coletivo do grupo com trilha musical emotiva no final. Ou, então, as sequências dos gritos de desabafo diante do mar. Além disso, o retorno à barraca de churros parece fora de ordem, pois àquela altura do filme Camilo já fora reeducado, certo? Há outros truques óbvios, sem muita criatividade, como o trecho em que o avô de Camilo se afasta dele na sala, ainda uma criança pequena, vai até a cozinha e retorna e o garoto já está crescido, numa elipse temporal manjada.
O Filho de Mil Homens não precisava desses artifícios para emocionar o grande público. O filme possui uma estrutura narrativa cativante, capaz de prender o espectador que precisa prestar atenção para descobrir de quem é o passado que cada capítulo conta. Há uma dosagem adequada de poesia, o suficiente para evitar a aridez nas críticas às posturas inadequadas que as pessoas adotavam e que agora começam a mudar – mas que precisa ser incentivado. Está um pouco abaixo de Bingo: O Rei das Manhãs, que trabalha na chave da acidez, mas não há erro em cravar que Daniel Rezende volta a fazer um grande filme.
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Ficha técnica:
O Filho de Mil Homens | 2025 | 128 min. | 128 min. | Direção: Daniel Rezende | Roteiro: Daniel Rezende | Elenco: Rodrigo Santoro, Rebeca Jamir, Johnny Massaro, Miguel Martines, Juliana Caldas.
Distribuição: O2 Play / Netflix.



