O Garoto Selvagem

Poster de "O Garoto Selvagem"

Título original: L'enfant Sauvage

Direção: François Truffaut

Ano de lançamento: 1970

Gênero: ,

Mais informações na ficha técnica abaixo do texto

Avaliação: 8/10

Já com a carreira consolidada, François Truffaut decide rodar um filme em estilo documental e em preto e branco. O Garoto Selvagem se baseia em um evento real, sobre um menino de uns 11 ou 12 anos que passou quase toda a sua vida sozinho na mata. Camponeses o encontraram no interior da França em 1798. Sujo, com cabelos compridos, incapaz de se comunicar e de andar com a postura ereta, ele é tratado como uma atração de circo, quase como o John Merrick de O Homem Elefante (1980), de David Lynch.

O médico Jean Itard (interpretado pelo próprio Truffaut) se interessa pelo caso e, após alguns testes no Instituto de Surdos e Mudos, obtém a custódia para cuidar do garoto em sua casa nos arredores de Paris, com a ajuda da governanta, a Madame Guérin (Françoise Seigner). Gradualmente, Itard desenvolve as habilidades humanas e sociais do garoto, a quem dá o nome de Victor. São nove meses de dedicação absoluta, durante os quais Madame Guérin se mostra fundamental para que o dr. Itard equilibre o interesse científico com um amor verdadeiro.

A direção de Truffaut

Truffaut retorna ao universo das crianças e adolescentes, tratado antes em Os Pivetes (1957) e Os Incompreendidos (1959) – e que retomaria em Na Idade da Inocência (1976). Em todos esses filmes, os pequenos ganham uma abordagem repleta de ternura.

Na sequência inicial de O Garoto Selvagem, praticamente sem diálogos, o menino (Jean-Pierre Cargol) parece um animal selvagem, movimentando-se agilmente pelo mato, subindo em árvores, entrando em um buraco, enfrentando um cão. A câmera evita mostrar o seu rosto. As pinceladas de ternura surgem depois. Primeiro, quando o lavam pela primeira vez e seu rosto aparece – a trilha musical delicada em instrumento de sopro enfatiza o pedido para o espectador enxergar o menino que está ali debaixo da sua armadura para sobreviver. Repetindo esse efeito, quando lhe cortam o cabelo toca no fundo outra música suave. Além disso, uma montagem com trechos dos passeios que Victor adora também ganham um acompanhamento musical, desta vez, mais alegre.

Truffaut utiliza a narração a partir de algum material literário, recurso comum em seu cinema. Aqui, a sua voz reproduz os relatórios e diários do verdadeiro dr. Itard, o que reforça o caráter documental. Por outro lado, o diretor recorre a um outro recurso, este estritamente cinematográfico, que é o fechamento da íris nas transições entre cenas, retardando essa ação para enfatizar algum detalhe.

A conclusão de O Garoto Selvagem dialoga com a de Os Incompreendidos. Assim como o adolescente Antoine Doinel (vivido por Jean-Pierre Léaud), Victor se encontra à beira de uma decisão crucial para o seu futuro: escolher entre o conforto, a segurança e o convívios social da vida na civilização, e a liberdade da floresta. Sem dúvida, um filme valioso pelo conteúdo interessante e pela forma sempre bem trabalhada por Truffaut.

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Ficha técnica:

O Garoto Selvagem | L’enfant Sauvage | 1970 | 83 min. | França | Direção: François Truffaut | Roteiro: François Truffaut, Jean Gruault | Elenco: François Truffaut, Jean-Pierre Cargol, Françoise Seigner, Paul Villé, Pierre Fabre, Jean Dasté, Annie Miller, Claude Miller.

Onde assistir:
François Truffaut, Jean-Pierre Cargol e Françoise Seigner em "O Garoto Selvagem"
François Truffaut, Jean-Pierre Cargol e Françoise Seigner em "O Garoto Selvagem"

Outras críticas:

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