Joaquim Pedro de Andrade construiu uma filmografia de apenas cinco longas. O Padre e a Moça é o primeiro deles. O filme se inspira no poema de Carlos Drummond de Andrade (encontrado dentro do livro “Lições de Coisas”, lançado em 1962), iniciando um padrão de base literária que se repetiria nas suas outras quatro películas.
A localização e a época são fundamentais para o retrato social que Joaquim Pedro de Andrade construí em O Padre e a Moça. O enredo é contemporâneo à sua produção, porém numa cidade isolada no interior de Minas Gerais que parece parada no tempo. Com locações em São Gonçalo do Rio das Pedras, Serra do Espinhaço e Gruta de Maquiné, a história se passa numa pequena vila que prosperou na época da extração de diamantes. Mas, as pedras se acabaram, os mais jovens foram embora, e poucos habitantes continuam ali.
Um padre angustiado
Numa cena emblemática, a câmera toma a perspectiva dos moradores locais, que se sentam na rua no meio da tarde, sem ter o que fazer. Neste cenário de miséria e desolação, chama a atenção de todos Mariana (Helena Ignez), que desce a rua em seu vestido branquíssimo – a fotografia em preto e branco evidencia esse destaque. Ela é a única mulher jovem desta comunidade. Cobiçada por todos, possuída por alguns, Mariana se resigna a se casar com Fortunato (Mário Lago), o homem mais rico dali (não rico de fato, mas é o dono da mercearia), que a acolheu quando criança e se aproveitou sexualmente dela desde sempre.
O padre que protegia Mariana morre, portanto, o caminho parece livre para Fortunato formalizar a sua propriedade sobre a moça. Nesse ambiente retrógrado, esse é o significado da união para ele e para a comunidade. Porém, o novo padre (vivido por Paulo José) será ainda mais contrário a essa posição de submissão da moça.
Como em outros filmes brasileiros da década de 1960, em especial naqueles cuja trama se passa no interior, a religiosidade possui uma influência sufocante, muitas vezes representada pelas cantorias repetitivas. Esse aspecto bate muito forte em O Padre e a Moça. O protagonista chega com uma aura de respeito, porém, basta ele conversar com Mariana, sozinhos à noite em sua casa, para que o preconceito das pessoas o transforme num pária. O padre, na verdade, não reconhece se é a situação de assédio institucionalizado ou um desejo proibido da carne que o abala tanto. O filme demonstra esse aprofundamento psicológico através das sobreposições de portas da casa que simbolizam as suas camadas de personalidade e através de uma dolorida extravasão de sua agonia por meio de gritos e gestos. Ele fica dividido, tenta resistir à tentação.
O retrato social
Joaquim Pedro de Andrade filma com a câmera livre dos cânones clássicos. A lente acompanha o rosto do padre de perto, enquanto ele se aproxima de Mariana, em movimento circular. Corta para o perfil dela, já nua. Planos curtos com partes dos corpos dos atores, sem nenhuma parte íntima à mostra, criam uma cena de sexo artística.
No lugar de uma música acelerada para embalar a cena de ação final, quando o padre e a moça fogem dos moradores, escuta-se uma mescla daquele mantra religioso com sua versão orquestrada. Na tela, planos curtos filmados com a câmera na mão, com figurantes cruzando na frente dos protagonistas. Uma trilha sonora diferente caracterizaria um trecho de filme de ação, até de terror dependendo da escolha. Mas, a opção aqui é outra, para não se distanciar do retrato social, que é a meta principal de Joaquim Pedro de Andrade. No desfecho, a desesperança absoluta: o casal padece queimada na estagnação, após uma fuga desesperada que culminou num retorno suicida.
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Ficha técnica:
O Padre e a Moça | 1966 | 90 min. | Brasil | Direção: Joaquim Pedro de Andrade | Roteiro: Joaquim Pedro de Andrade | Elenco: Helena Ignez, Paulo José, Mário Lago, Fauzi Arap, Rosa Sandrini, Víctor de Oliveira
Distribuição: Difilm.



