O Sobrevivente, de 1987, volta à lembrança agora por dois motivos. Primeiro, porque é uma adaptação de Stephen King com uma premissa próxima de A Longa Marcha (The Long Walk, 2025), recém-lançado nos cinemas e baseada num livro desse autor. Os dois filmes se passam num futuro dominado por um governo totalitário e que usa uma competição violenta para distrair o povo. O outro motivo para esse longa vir à tona é que uma nova versão, dirigida por Edgar Wright, estreia em novembro deste ano.
O diretor desta versão dos anos 1980, Paul Michael Glaser, é mais lembrado como o ator que interpretou Starsky no seriado Starsky e Hutch (1975-1979). No cinema, dirigiu apenas cinco longas. O Sobrevivente é o seu segundo e melhor deles. Mas, na televisão, se manteve ativo, tanto na atuação como na direção.
Glaser realiza um trabalho competente em O Sobrevivente. Os problemas que o filme possui não são de direção. Um deles é a atuação robótica de Arnold Schwarzenegger no papel principal, em parte por culpa dos diálogos ridículos. O outro, mais grave, está na concepção carnavalesca dos oponentes que o protagonista enfrenta. O primeiro, o Subzero, é bem legal, uma mistura de samurai com jogador de hóquei, mas os demais são um mais bizarro que o outro. O pior é o punk com luzes coloridas que canta ópera durante a luta. Esses personagens esdrúxulos ultrapassam a barreira do divertido e caem no kitsch, num tom de deboche que atrapalha a emoção dos confrontos.
Diversão garantida
Apesar desses problemas, O Sobrevivente entrega uma experiência prazerosa. Para começar, traz a visão do amanhã a partir de 1987. O futuro acontece em 2017, quando os recursos se tornaram escassos e o governo ditatorial comanda com mãos de ferro. Para entreter o povo, um game show na televisão promove, com o patrocínio do governo, uma competição de vida ou morte para os participantes. Ben Richards (Schwarzenegger), um policial falsamente condenado (porque se recusou a matar inocentes em uma manifestação) é forçado a entra nesse jogo.
A concepção dos cenários se inspira em Blade Runner (1982) e cria um ambiente urbano noturno e repleto de neon e névoas. O próprio edifício da sede da Sony Pictures em Culver City aparece como a emissora de TV que realiza a competição mortal. A trilha está repleta de música eletrônica típica dos anos 80. E enquanto as telas dos computadores ainda lembram a tecnologia analógica, o filme, por outro lado, consegue prever a falsificação de imagens através da computação gráfica.
Olhando o todo, O Sobrevivente é uma salada. Mistura tons (violento, escrachado), gêneros (ficção-científica, ação), tecnologias (computadores, armas de fogo). Mas, é uma combinação inusitada que dá certo, pelo menos o suficiente para garantir uma boa diversão.
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Ficha técnica:
O Sobrevivente | The Running Man | 1987 | 101 min. | EUA | Direção: Paul Michael Glaser | Roteiro: Steven E. de Souza | Elenco: Arnold Schwarzenegger, Maria Conchita Alonzo, Yaphet Kotto, Jim Brown, Jesse Ventura, Erland van Lidth, Marvin J. McIntyre, Professor Toru Tanaka, Mick Fletwood, Dweezil Zappa, Richard Dawson, Karen Leigh Hopkins, Sven-Ole Thorsen.



