Steven Spielberg filmou O Terminal entre Prenda-me Se For Capaz (2002) e Guerra dos Mundos (2005). É um filme que equilibra o entretenimento puro e a consciência social e política. O seu inteligente roteiro, escrito por Sacha Gervasi e Jeff Nathanson, cria uma situação absurda em seus exageros, mas costumeira em uma escala padrão.
Viktor Narvoski (Tom Hanks) viaja para os Estados Unidos, mas não consegue entrar no país porque, enquanto voava, aconteceu um golpe de estado no seu país (fictício) Krakozhia. E, agora, o seu passaporte não tem mais validade. Então, o diretor da alfândega do aeroporto (o JFK de Nova York), Frank Dixon (Stanley Tucci), determina que ele permaneça confinado dentro de um dos terminais, até que seu passaporte seja revalidado e ele possa entrar nos Estados Unidos ou voltar ao seu país. Porém, essa situação se prolonga por mais de nove meses.
Durante esse longo período, Viktor precisa se adaptar a essa nova casa. Habilidoso em serviços de construção, improvisa uma cama num setor em reforma, e ainda consegue um trabalho por ali. Além disso, encontra uma forma honesta de ganhar uns trocados, devolvendo os carrinhos de bagagem. Mas, Dixon, empolgado com a possibilidade de ser promovido a comissário do aeroporto, bola umas soluções engenhosas para se livrar de Viktor. Este, porém, não aceita essas malandragens.
O enredo possui subtramas para movimentar essa história que, sem elas, poderia se tornar sufocante. Por exemplo, a do motorista de carrinhos de comida do aeroporto, Enrique Cruz (Diego Luna), que pede a Viktor para ajudá-lo a se aproximar de Dolores Torres (Zoe Saldaña), a oficial da imigração por quem ele está apaixonado. Ou a história de Amelia Warren (Catherine Zeta-Jones), aeromoça de 39 anos iludida com um amante casado.
Spielberg desafiado
Porém, outros elementos contribuem para que O Terminal soe tão prazeroso de se assistir. O humor é um deles, presente em vários momentos, sem receio de parecer tolo (por exemplo, Viktor entra no banheiro feminino por engano, passa pelo equipamento de raio-X etc.).
Formalmente, o desafio de filmar em um espaço limitado serve como estímulo para um diretor experiente e talentoso como Spielberg. Assim, o diretor contrapõe essa restrição com uma movimentação intensa da câmera, especialmente (mas não exclusivamente) na primeira parte, enquanto a trama ainda está esquentando. Nesse processo, circula a câmera pelo aeroporto e até ao redor dos personagens. A comunicação visual se destaca, desde os créditos iniciais, passando pelo plano fechado que se transforma em panorâmica para mostrar o quão isolado está o protagonista em meio à multidão do aeroporto. Além disso, repare na criativa cena na qual ele prova as roupas através do reflexo no vidro da vitrine da loja.
Sob essa trama inventiva e essa direção rebuscada, existe uma luta entre a ganância maquiavélica (personificada em Nixon) e a humanização encarnada no protagonista. Viktorn Narvosky não é simplório como Forrest Gump – só não sabe falar inglês. Inteligente e resiliente, o personagem é acima de tudo íntegro.
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Ficha técnica:
O Terminal | The Terminal | 2004 | 128 min. | EUA | Direção: Steven Spielberg | Roteiro: Sacha Gervasi, Jeff Nathanson | Elenco: Tom Hanks, Catherine Zeta-Jones, Stanley Tucci, Chi McBride, Diego Luna, Barry Shabaka Henley, Kumar Pallana, Zoe Saldaña.



