Sérgio Graciano é um diretor lisboeta com vasta experiência no cinema e na televisão, portuguesa e angolana. Seu filme Os Papéis do Inglês se baseia na trilogia de livros “Os Filhos de Próspero”, de Ruy Duarte de Carvalho. Por isso, sua estrutura narrativa se divide em três relatos, com um indissociável atrelamento à literatura.
A narrativa condutora acontece em 1999, quando o poeta Ruy Duarte de Carvalho (João Pedro Vaz) reacende as esperanças de encontrar um tesouro a partir das pistas deixadas por um inglês em papeis entregues ao seu pai. Mas, o filme ainda não se estende nesse cenário. Logo retrocede para contar a história de seu cozinheiro e assistente Trindade (David Caracol). Esse segmento estabelece o tempo e o impacto da independência de Angola, que foi colônia de Portugal até 1975.
Seguindo outras pistas sobre os papéis do inglês, Ruy Duarte chega a Severo (Carlos Agualusa), atualmente dono de uma mecânica na Namíbia. Esta colônia só ficou independente de Portugal em 1990. E o filme conta como Severo se negou a ir para a guerra e se escondeu na tribo de seu amigo Kappa (Délcio Rodrigues), onde se casou com duas mulheres.
O terceiro segmento retoma o tempo do início do filme. Um pouco depois, quando Ruy recebe o primo Kaluter (Miguel Borges), que se mudou para Portugal quando a Angola conquistou a sua independência. Ele chega acompanhado da prima Paula (Carolina Amaral) e sua amiga Camila (Joana Ribeiro), esta uma admiradora dos livros de Ruy. Esta parte final revela as diferenças entre aqueles que continuaram na Angola (como Ruy) e os que foram para Portugal (Kaluter), distinção que Ruy Duarte de Carvalho conhecia bem e, certamente, Sérgio Graciano se sente confortável em abordar.
Direção elegante e rigorosa
Como diretor, Sérgio Graciano se esmera em filmar com elegância. Essa característica aparece no classicismo de sua câmera e de sua montagem, que se distingue pela elegância nas transições (a maioria delas em fade outs sem pressa). A direção de fotografia, do veterano Mário Castanheira, incrementa esse estilo caprichado, típico do cinema português.
O rigor formal, porém, sufoca a poesia das muitas leituras de trechos de textos ao longo do filme. Quando assume o papel de narrador, o personagem Ruy até soa mais envolvente, numa fala mais solta. Porém, nas leituras, sejam dele ou dos outros personagens, as palavras ressoam com dureza. Sente-se falta de uma interpretação menos rígida, como François Truffaut dominava com maestria em seus filmes.
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Ficha técnica:
Os Papéis do Inglês | 2025 | Portugal | 136 min. | Direção: Sérgio Graciano | Roteiro: José Eduardo Agualusa | Elenco: João Pedro Vaz, David Caracol, Miguel Borges, Carlos Agualusa, Délcio Rodrigues, Joana Ribeiro, Carolina Amaral, Sandra Gomes, Xavier António.



