Saudade Fez Morada Aqui Dentro alcança o sentimentalismo com uma pureza ímpar. A partir de uma premissa melodramática, que renderia um novelão apelativo em mãos menos talentosas, o filme consegue transmitir o turbilhão de emoções que ocupam a mente de Bruno, um adolescente de quinze anos que está perdendo a visão.
O enredo demora um pouco para engrenar. A cena da escola, apesar de ser necessária para inserir os personagens Vinícius (o professor que se voluntaria a ensinar Bruno e é atacado pelos colegas) e Ângela (a colega de classe e melhor amiga de Bruno), soa falsa. Em parte, pela má atuação dos figurantes, mas também porque dá a impressão de forçar uma crítica às instituições escolares despreparadas para receber alunos com deficiência visual. Crítica válida, aliás.
Depois, o filme ganha força a partir da ótima atuação de Bruno Jefferson. Detalhe: os prenomes dos atores são os mesmos dos personagens, o que costuma acontecer quando eles não são atores profissionais ou estão em início de carreira. A presença de Fátima Toledo como preparadora de elenco reforça essa tese.
Bruno Jefferson aproveita o melhor que o roteiro proporciona ao personagem. O Bruno do filme reage de diferentes formas a sua nova condição. Passa pela revolta, pela tristeza, pela aceitação e tentativa de aproveitar os últimos momentos que ainda pode enxergar. E, no tocante final, de recuperar a sua alegria de viver.
Um personagem completo
O inteligente roteiro escrito por Haroldo Borges (o diretor) e Paula Gomes não se deixa esvaziar restringindo-se somente à doença degenerativa do protagonista. Inclui também os dramas de todo adolescente. Ele está apaixonado por Terena (Terena França), mas leva um fora. Posteriormente, descobre que ela está namorando uma menina, justamente Ângela. Em paralelo, o filme traz também a cumplicidade entre os irmãos Bruno e o mais novo Rony (Ronnaldy Gomes), seu inseparável companheiro das alegrias e das tristezas.
É bonito ver como Rony e a mãe Wilma (Wilma Macedo) lidam com a doença. A dor não é só de Bruno, mas de todos eles, como afirma a mãe em certo trecho do filme. Nesse sentido, Saudade Faz Morada Aqui Dentro traz uma mensagem de superação. Na parte final, Bruno vai se adaptando à nova condição, com o apoio dos mais próximos. E, mesmo sem, pois quando Ângela se descuida e ele fica perdido sozinho, longe da cidade, num terreno cheio de pedras, Bruno sofre mas consegue retornar para casa, depois de muitas horas. É um momento crucial do enredo, pois marca a virada do personagem, que se sente realizado por ter provado a si mesmo que é capaz de suplantar os obstáculos da cegueira.
Em relação à direção, o uso predominante da câmera trêmula acaba cansando. Faltou equilibrar esse recurso com uma câmera fixa para os momentos mais serenos, como nas conversas. Alguns jump cuts também atrapalham, pois não acrescentam nada à narrativa. Esse estilismo só se encaixa perfeitamente no dramático momento em que Bruno perde sua visão. No restante, desvaloriza a atuação surpreendente de Bruno Jefferson, ao desviar a atenção para a câmera e não para o que acontece dentro da tela.
Ainda assim, o drama se sobressai, com o impacto sentimental de parecer muito próximo de todos nós.
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Ficha técnica:
Saudade Fez Morada Aqui Dentro | 2022 | 107 min. | Brasil | Direção: Haroldo Borges | Roteiro: Haroldo Borges, Paula Gomes | Elenco: Bruno Jefferson, Ângela Maria, Ronnaldy Gomes, Terena França, Wilma Macêdo, Heraldo de Deus, Vinicius Bustani.
Distribuição: Cajuína Audiovisual,