Sorry, Baby trata o tema do assédio sexual com uma estranha e desconcertante frieza. O ato criminoso em si não é mostrado, fica implícito em três planos seguidos que mostram a casa onde aconteceu o abuso. A vítima engole sua angústia em seco, incapaz de expressar verbalmente. Até porque, quando o faz perante as pessoas que podem tomar alguma atitude, nada acontece.
Algumas faíscas de humor são insuficientes para espantar o tom depressivo do filme. Por exemplo, os títulos dos capítulos – a narrativa é segmentada em partes não cronológicas – representam uma brincadeira com a série Friends, cujos episódios tinham nomes que começavam com “aquele com…”, enquanto neste filme os capítulos começam “o ano com…”. Além disso, a personagem Lydie (Naomie Ackie), melhor amiga da protagonista, solta várias falas sarcásticas, de uma comicidade ácida, mais crítica que engraçada. A sequência do tribunal, também, é um esquete cômico, mas que se apoia na sátira.
A boa recepção que o filme obteve até agora em festivais e na crítica em geral extrapola a mise-en-scène. A obra se fortalece ao se conhecer que se baseia nas experiências pessoais da sua autora, a atriz principal, roteirista e diretora Eva Victor. Vítima de um abuso, ela canaliza suas angústias nesta criação que, embora seja ficcional, deixa transparecer os efeitos traumáticos do assédio*.
A frieza como ferramenta de superação
Na trama, após sofrer abuso sexual do seu professor, Agnes (Eva Victor) recorre à frieza, reforçada pelo clima gélido de Massachusetts, para se recuperar do trauma. O filme não tenta amenizar os efeitos devastadores dessa terrível experiência. Agnes muda o seu comportamento, fica mais protetiva. Cobre os vidros da janela da sua casa, emblematicamente com páginas da tese que estava preparando com o professor que a agrediu. Ela passa a ter medo de entrar na casa do vizinho Gavin (Lucas Hedges), por exemplo. E, não sente prazer no ato sexual com ele. A última cena é devastadora: Agnes conversa com um bebê e expressa a sua visão do mundo como um lugar perigoso.
Além da paisagem gelada, Eva Victor filma várias cenas em que a protagonista é vista através da porta que está em segundo plano no enquadramento, representando uma camada de sua personalidade que ela é incapaz de esconder. Mas, é na sua atuação que o drama ganha uma intensidade dolorosa. Sua expressão facial e corporal carrega a dor que a acompanhará para sempre.
Sorry, Baby não é um filme nada fácil de se assistir. Retrata uma tristeza seca, que nem os supostos momentos de sarcasmo conseguem aliviar.
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Ficha técnica:
Sorry, Baby | 2025 | 103 min. | EUA, Espanha, França | Direção: Eva Victor | Roteiro: Eva Victor | Elenco: Eva Victor, Naomi Ackie, Louis Cancelmi, Kelly McCormack, Lucas Hedges, John Carroll Lynch.
Distribuição: Mares Filmes e Alpha Filmes.



