As filmagens num set inundado são o que mais impressionam em Tempestade (Hard Rain). Dirigido por Mikael Salomon, que só fez mais dois longas – Viagem ao Grande Deserto (A Far Off Place, 1993) e Congelado (Freezer, 2014) – porque concentrou sua carreira em trabalhos para a televisão, o filme mistura os gêneros catástrofe e assalto (disaster movie e heist movie).
A pequena cidade de Huntingburg, no estado da Indiana, está sendo completamente inundada devido a uma forte tempestade que rompe as barreiras da represa local. Nesse ambiente caótico, Tom (Christian Slater) e seu tio tentam cumprir o seu serviço de transporte em carro forte. Porém, uma quadrilha de assaltantes liderada por Jim (Morgan Freeman) os intercepta. Depois que seu tio é morto com um tiro precipitado, Tom foge com os três milhões de dólares que transportam e esconde o dinheiro em um cemitério. Enquanto tenta fugir dos ladrões, Tom encontra o xerife (Randy Quaid) e Karen (Minnie Driver), que está restaurando uma antiga igreja da cidade, além de outros personagens coadjuvantes.
O dilúvio
O filme permite uma leitura mais profunda, além desse enredo de ação banal. Desde o início, se evidencia a intenção de provocar o questionamento da índole dos personagens. Na primeira aparição de Tom e seu tio, a cena é filmada de uma forma que deixa a impressão de que eles estão roubando o dinheiro. Eles pedem para o homem que está pegando a grana no cofre se apressar. Quando a sequência vai para a rua, a imagem revela que eles vestem uniformes de seguranças. E, para não deixar dúvidas, aquele homem grita: “Ei, vocês se esqueceram de assinar (o recibo)”.
Esse trecho introduz o tema principal de Tempestade, que trata das pessoas corrompidas pela ganância. Durante todo o filme, não dá para saber em quem se pode confiar. Alguns poucos personagens são exceções, mas a maioria demonstra más intenções. Considerando a inundação da cidade e ainda que boa parte do clímax final acontece dentro de uma igreja, se sobressai a aproximação com o relato bíblico da Arca de Noé, quando Deus inunda a Terra com um dilúvio porque a humanidade havia se tornado extremamente perversa, violenta e corrompida.
Um filme de ação raso
Contudo, essa interpretação, intencional ou não, é insuficiente para salvar o filme em si de ser um desastre. Esse jogo de surpreender sobre as intenções dos personagens é tão frequente que se torna banal. Sem contar que, com isso, os personagens parecem inconsistentes. Acaba envolvendo todos que aparecem na história, a maioria tendendo para o lado mal. Além disso, a montagem é confusa, em muitos casos porque parece desrespeitar a ordem da narrativa. Por exemplo, quando o personagem de Morgan Freeman deduz que Tom escondeu o dinheiro porque assim os bandidos não o matarão (sem descobrir o esconderijo), faltou mostrar antes Tom escondendo o dinheiro. E, nas cenas de ação, Mikael Salomon abusa do efeito de slow motion para os momentos de impacto.
No fundo, as qualidades de Tempestade – a produção e a possível interpretação bíblica – não impedem que pareça um filme de ação ordinário.
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Ficha técnica:
Tempestade | Hard Rain | 1998 | 97 min. | Estados Unidos, Reino Unido, Dinamarca, França | Direção: Mikael Salomon | Roteiro: Graham Yost | Elenco: Morgan Freeman, Christian Slater, Randy Quaid, Minnie Driver, Ed Asner, Richard Dysart.
Distribuição: Paramount Pictures.



