Vidas Entrelaçadas (Coutures) fica entre os entrelaçamentos de diversos personagens, uma reflexão sobre a vida e os bastidores da moda.
A ideia dos entrelaçamentos está expressa no título original (“costuras”), que também indica o ambiente da alta costura no qual o enredo se desenvolve. O enredo acompanha quatro mulheres que convergem para a Semana de Moda em Paris.
Maxine (Angelina Jolie) é a protagonista principal. Artista audiovisual americana, ela é a responsável por dirigir o clipe de abertura do evento. Em seguida, rodará seu primeiro longa-metragem. Seu grande momento profissional se contrapõe à sua vida pessoal. Ela está se divorciando e isso abalou seu relacionamento com a sua filha pré-adolescente. Além de tudo, ela recebe a arrasadora notícia de que está com câncer e precisa iniciar a quimioterapia com urgência.
A sul-sudanesa Ada (Anyier Anei) estreia como modelo em um desfile deste porte. Ela será a primeira a pisar na passarela e, por isso, protagoniza o clipe de abertura que Maxine dirige. Tudo é novidade para Ada, que busca ganhar experiência com as colegas de apartamento.
Mas, o maior apoio Ada recebe de Angele (Ella Rumpf), uma experiente maquiadora de modelos. Eventualmente, Angele conhece Maxine e a doença dela a inspira a acrescentar ao livro que escreve o drama que a obra precisa.
Por fim, a outra personagem que entra nessa costura de relacionamentos é Christine (Garance Marillier). A jovem estilista está sob forte pressão porque precisa terminar o vestido que Ada vestirá na abertura da Semana de Moda. É a maior vitrine que ela poderia sonhar para mostrar o seu talento.
O futuro é imprevisível
A parte final da trama reverbera a situação de Maxine. Justamente quando ela tem a chance de rodar seu primeiro filme e catapultar a sua carreira como cineasta, tudo vem abaixo porque ela precisa focar em sua saúde. Similar decepção enfrentam as três outras personagens. Na hora da abertura da Semana de Moda, uma tempestade impiedosa castiga o local, arruinando o desfile. E, com isso, destrói os sonhos de Ada e Christine de brilharem na passarela.
No final das contas, todas percebem que o estresse da preparação não adiantou muito. Porque a vida acontece assim, sem que as pessoas possam desenhar os seus futuros. Angele encontra sua narrativa, e sua voz traz a reflexão sobre esse desfecho inesperado que convida a uma postura menos preocupada, conformada com a imprevisibilidade do porvir.
A diretora e roteirista Alice Winocour novamente realiza um filme que parece não seguir um rumo rigidamente definido – como em Memórias de Paris (Revoir Paris, 2022). A proposta de vários personagens que se cruzam, talvez influenciada por Robert Altman, não funciona tão bem por causa do protagonismo desequilibrado entre eles. Maxine concentra a maior parte da atenção, enquanto pouco se revela de Christine. Em alguns momentos, o filme parece acenar para o público interessado no mundo da moda. A cena em que as modelos desfilam de brincadeira no corredor do hotel é um exemplo dessa abordagem. Aliás, a intenção de revelar os bastidores da Semana de Moda em Paris repete aqui o que o próprio Altman já fez antes em Prêt-à-Porter (1994).
A cena final, no desfile, eleva Vidas Entrelaçadas. É um desfecho inesperado, filmado com trechos em câmera lenta, como se fosse um sonho/pesadelo. Devia terminar aí, mas ainda acompanha a personagem de Angelina Jolie se preparando para voltar aos Estados Unidos para encarar o tratamento.
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Ficha técnica:
Vidas Entrelaçadas | Couture | 2025 | 106 minutos | França, Estados Unidos | Direção: Alice Winocour | Roteiro: Alice Winocour | Elenco: Angelina Jolie, Louis Garrel, Ella Rumpf, Vincent Lindon, Anyier Anei, Garance Marillier.
Distribuição: Synapse.



