A Grande Inundação é mais um produto da convicção de que conteúdo é tudo. Ideia que domina os filmes sul-coreanos contemporâneos, principalmente aqueles produzidos para a Netflix. Segundo essa crença, a história precisa ser bombástica (os influencers fazendo gesto de explosão com as mãos ao lado da cabeça traduz essa imagem), com muitas reviravoltas na trama e surpresas para o espectador.
Faz parte desse objetivo conduzir o público para deduções erradas. No caso de A Grande Inundação, esse processo começa pelo título, que indica que se trata de um filme-catástrofe. De fato, o primeiro terço segue nessa toada, mas provocando estranheza por se concentrar apenas em dois personagens, An-na Koo e seu filho Ja In de 6 anos. E, neste gênero de filme, o usual consiste em acompanhar várias pessoas para descobrir como a catástrofe as afeta e instigar o público a descobrir quem conseguirá sobreviver. Aqui, a perspectiva restrita causa um sufoco não desejado, porque na maior parte do tempo a câmera se mantém ao lado dos dois protagonistas, enquanto ignora os demais moradores que enfrentam o mesmo drama, como se a vida deles fossem descartáveis.
A mãe e seu filho precisam desesperadamente subir para andares mais altos porque uma enorme enchente já atingiu o terceiro andar onde moram. Eles recebem a ajuda de Hee-jo, um homem misterioso que tem a missão de conduzir An-na até o helicóptero que virá buscá-la. Todo esse esforço especial tem uma justificativa. Ela é essencial por ser a última especialista em geradores de emoção que permitirão criar uma nova raça humana. Ou seja, o filme se desloca do gênero catástrofe para a ficção-científica, inclusive com cenas do foguete que transporta An-na pelo espaço.
Plot twists
Então, antes mesmo que o espectador absorva essa mudança, outra reviravolta acontece. Por conta de uma escolha de An-na, ela tem a oportunidade de reviver esse mesmo dia até atingir o resultado que deseja, o que envolve decifrar um certo enigma. A Grande Inundação se transforma, então, num Feitiço do Tempo (1993) com catástrofe e sci-fi. E esse tipo de filme precisa ter um roteiro muito afinado para não ser cansativo. Afinal, repete várias vezes o mesmo dia, e o personagem principal precisa fazer algo diferente para obter um resultado distinto daquele que ele quer evitar.
O filme de Harold Ramis trabalha isso muito bem, mas o diretor e roteirista Byung-woo Kim não, porque está todo o tempo preocupado em surpreender o espectador. Por isso, estampa na camiseta da protagonista a quantidade (absurda) de vezes que ela repete esse dia, e ainda insere vários flashbacks que revelam gradativamente um pouco mais da verdade por trás dessa história.
O resultado é uma experiência maçante. Os personagens principais não são nada carismáticos (nem mesmo a criança), os efeitos visuais em computação gráfica pouco impactantes porque parecem padronizados, e a direção mais apelativa do que criativa. Típico caso de um conteúdo que impacta mais no pitching do que no produto final.
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Ficha técnica:
A Grande Inundação | Daehongsu / The Great Flood | 2025 | 115 min. | Coreia do Sul | Direção: Byung-woo Kim | Roteiro: Byung-woo Kim | Elenco: Kim Da-mi, Park Hae-soo, Kwon Eun-seong, Jeon Hye-jin, Park Byung-eun, Lee Hak-joo, Yuna, Park Mi-hyeon, Lee Dong-chan, Kwon Min-kyung, Kim Dong-young, Kim Kang-bin, Eun Su, Ahn Hyun-ho.
Distribuição: Netflix.



