Em seu longa anterior, o diretor Oliver Hermanus provou com a sua ousadia de refilmar Viver (Ikiru, 1952), de Akira Kurosawa, que pode assumir desafios maiores do que sua filmografia até então representou. Essa oportunidade chega com A História do Som, uma história de dois homens conectados pelo amor e pela música.
Priorizando a sutileza, Hermanus desfila a trama sem nenhuma pressa e sem conflitos aparentes. Uma narração introduz o enredo, que começa em 1910, em Kentucky, na infância de Lionel, uma criança com um dom especial para a música. Esse talento o leva, ainda jovem, para Boston, onde ele se surpreende ao ouvir um pianista tocar a mesma música que seu pai costumava cantar em casa. De imediato, Lionel (Paul Mescal) e David (Josh O’Connor) estabelecem uma conexão musical e sentimental. Por isso, na mesma noite em que se conhecem, os dois transam.
Lionel retorna para a fazenda de sua família, e David vai para a guerra. Eles se reencontram anos depois, para realizar um projeto de pesquisa sobre folk music, registrando em cilindros as músicas que as pessoas cantam no estado do Maine. Com o auxílio do diretor de fotografia Alexander Dynan, frequente colaborador de Paul Schrader, Oliver Hermanus se esmera em caracterizar essa viagem como um momento mágico para os protagonistas. Aproveita, para isso, o talento dos atores Paul Mescal e Josh O’Connor, que exalam a alegria apaixonada que sentem os seus personagens. E, reincidentes intervenções musicais para a pesquisa intensificam essa sensação de felicidade plena.
Sutileza em tudo
O filme parece não ligar para fórmulas prontas. Nenhum obstáculo surge para atrapalhar esse momento especial. O possível preconceito pelo relacionamento gay está ausente desse cenário. Até pela presença de Josh O’Connor, parece que esse trecho pertence a um filme de Kelly Reichardt, que faz um cinema sem pressa e sem clímax dramático. Entre Lionel e David, o único conflito que existe é o fato de o projeto ter fim.
Após a pesquisa, cada um retorna para suas casas. Lionel envia cartas a David, mas este nunca responde. O tempo passa e a paixão esfria. Na Europa, Lionel tem seu talento reconhecido no meio musical, tornando-se um profissional prestigiado. Em Oxford, namora Clarisse (Emma Canning). Mas, quando o relacionamento fica muito sério, percebe que sente saudades daquela viagem no Maine. De forma sensível, isso surge com a música folk que ele ouve na mansão da namorada.
Repetindo o que fez em seu Viver (Living, 2022), Oliver Hermanus evita gatilhos para provocar lágrimas. Lionel retorna para os Estados Unidos, e descobre o motivo por que David nunca respondeu as suas cartas. A solução para revelar esse segredo é engenhosa, por se relacionar com o projeto que reuniu os dois amantes. E mantém a sutileza que predominou durante todo o filme, qualidade que positiva o êxito do diretor e o prepara para voos mais altos.
A História do Som integra programação da 49ª Mostra de São Paulo.
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Ficha técnica:
A História do Som | The History of Sound | 2025 | 127 min. | EUA, Reino Unido, Itália | Direção: Oliver Hermanus | Roteiro: Ben Shattuck | Elenco: Paul Mescal, Josh O’Connor, Chris Cooper, Raphael Sbarge, Molly Price, Tom Nelis, Emma Canning, Hadley Robinson.
Distribuição: Universal Pictures.



