É bem provável que o diretor venezuelano Jorge Thielen Armand tenha escrito A Morte Não Tem Dono como uma metáfora da colonização de seu país e de seus posteriores desdobramentos. Mas a intervenção dos Estados Unidos de Donald Trump, que bombardearam Caracas e outras cidades em janeiro de 2026 e prenderam o presidente Nicolás Maduro, trouxe outra significação para o filme. Agora, a alegoria vale também para o retorno dos países do hemisfério norte buscando explorar mais riquezas dos países sulistas.
No filme, Asia Argento interpreta Caro, a herdeira de uma fazenda de cacau na Venezuela. Ela encontra a propriedade em péssimo estado e ocupada por Sonia, a antiga empregada da família. Disposta a exercer os seus direitos e vender o imóvel, ela busca a polícia. Porém, descobre que a lei protege a população local. Então, decide recorrer à violência, que explode dos dois lados, trazendo memórias traumáticas do passado.
A estética setentista
O diretor Jorge Thielen Armand adota uma estética dos anos 1970, escura, suja e com enquadramentos inusitados (sem favorecer os personagens, muitas vezes filmando apenas partes de seus corpos). A violência crua e brutal também remete a essa década, que foi berço de Aniversário Macabro (1972), de Wes Craven, e O Massacre da Serra Elétrica (1974), de Tobe Hooper. As lembranças em flashes lisérgicos também pertencem a essa época, como se fossem também um retorno à Guerra do Vietnã.
O longa, porém, sofre com uma acentuada lentidão em sua metade. Quando a protagonista sai da fazenda, se encontra com o seu advogado e se hospeda num hotel, toda a tensão se esvai. As conversas modorrentas cansam, e o sexo parece deslocado nesse filme, que só recupera a atenção do espectador quando retorna para a propriedade em disputa na parte final. Aí, sim, o filme cresce. A violência descontrolada inclui até surra de chicote, numa tardia vingança contra os colonizadores.
Apesar da desaceleração complicada na sua metade, A Morte Não Tem Dono deixa os seus recados com um visual marcante. Confira na 50ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo.
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Ficha técnica:
A Morte Não Tem Dono | La Muerte no Tiene Dueño | 2026 | Venezuela, Canadá, Itália, Luxemburgo | 106 min. | Direção: Jorge Thielen Armand | Roteiro: Jorge Thielen Armand | Elenco: Asia Argento, Dogreika Tovar, Yermain Sequera, Jorge Thielen Hedderich, Arturo Rodríguez, Jericó Montilla, José “Chindito” Aponte.



