A Onda, de Roar Uthaug, conseguiu uma ótima repercussão nas bilheterias na Noruega, onde foi produzido. Tanto que até foi a escolha do país como concorrente ao Oscar de melhor filme estrangeiro. Não entrou na lista de candidatos, mas estimulou uma série de filmes-catástrofes noruegueses nos anos seguintes: Terremoto (Skjelvet, 2018), de John Andreas Andersen, que é uma sequência de A Onda; O Túnel (Tunnelen, 2019), de Pål Øie; e Mar em Chamas (Nordsjøen, 2021), também dirigido por John Andreas Andersen.
O sucesso comercial desses filmes, porém, não condiz com a qualidade deles. Nesta crítica, concentro-me apenas em A Onda. O seu forte apelo local se justifica pela especificidade do fenômeno natural que provoca a catástrofe. Conforme a trama, nas gélidas paisagens do fiorde Geiranger, na Noruega, uma enorme fenda montanhosa desaba, desencadeando uma onda gigante de 80 metros de altura.
O geólogo Kristian Eikjord, em seu último dia de trabalho na estação de monitoramento do local, tenta salvar a maior quantidade de pessoas possível, inclusive a sua família, do tsunami que invade a pequena cidade onde mora. Após a estação acionar o aviso de alerta, a ação se divide em duas frentes. Numa delas, ele incita todos que estão no engarrafamento da estrada a descerem dos seus carros e correrem para os lugares mais altos da montanha. Junto a ele, está a sua filha caçula. Na outra frente, seu filho mais velho e sua esposa se abrigam no subsolo de um hotel inundado.
Personagens sem apelo
Diferente da fórmula hollywoodiana do gênero, aqui não há um grupo de personagens, geralmente representando um tipo social, na luta pela sobrevivência. O que temos é Kristian, o cidadão comum transformado em herói por trabalhar junto à fonte da catástrofe. Mas, além de soltar avisos para a população, sua atuação se concentra em resgatar a esposa e o filho.
Apesar de ser uma missão mais pessoal, essa situação não emociona tanto. Primeiro, porque o enredo simplesmente diminui demais a importância de todos os outros personagens. E o espectador não liga muito para as suas mortes. Nem mesmo dos companheiros de equipe, porque nenhum deles foi devidamente apresentado ao público.
Para piorar, nem os protagonistas (a família Eikjord) atraem a empatia de quem assiste ao filme. Não há nada de atrativo neles. O visual de Kristian, com cabelos desgrenhados e bigode malfeito, carece da construção de uma personalidade forte. Teoricamente, ele seria o especialista responsável que poderia ter salvado mais pessoas ao notar os sinais de alerta. E um pai de família exemplar. Mas, não é essa impressão que ele passa. Inclusive, ele parece brigar com a esposa (como nota a filha caçula), mas os motivos não aparecem na tela. Aliás, contraditoriamente, o casal até parece bem apaixonado um pelo outro. O desentendimento com o filho de uns 17 anos também não convence, pois surge apenas porque o garoto está cansado de mudar de casa toda vez que o pai é transferido.
Mais indicado para espectadores locais
Pelo menos, os fãs do gênero podem se entusiasmar com as cenas das ondas gigantes se aproximando das pessoas que estão na estrada na montanha, ou no hotel prestes a ser inundado. Não são um primor de feitos visuais, mas funcionam. No entanto, são momentos que não duram muito. Fora isso, resta basicamente o resgate no hotel, numa situação que parece menor (três pessoas presas num lugar sendo invadido pela água) do que a imensa catástrofe na região.
No fundo, A Onda agradou ao público norueguês porque a trama acontece no país, em um dos seus pontos turísticos mais famosos. Para o público internacional, é apenas um filme-catástrofe de segunda linha.
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Ficha técnica:
A Onda | Bølgen | 2015 | 105 min. | Noruega | Direção: Roar Uthaug | Roteiro: John Kåre Raake, Harald Rosenløw-Eeg | Elenco: Kristoffer Joner, Ane Dahl Torp, Jonas Hoff Oftebro, Edith Haagenrud-Sande.



