A Única Saída

Cartaz de "A Única Saída" (divulgação/MUBI)

Título original: Eojjeolsuga eobsda / No Other Choice

Direção: Park Chan-wook

Ano de lançamento: 2025

Data de estreia no Brasil: 22/01/2026

Mais informações na ficha técnica abaixo do texto

Avaliação: 7,5/10

O cinema sul-coreano tem se destacado por suas tramas disruptivas, que tiram o chão do espectador. Porém, a maioria dos filmes atuais de lá pecam no quesito direção, tendendo a modernidades estilísticas que não agregam à narrativa, quando não chegam a ser definitivamente mal dirigidos, o que acontece muito com os cineastas estreantes. Não é o caso de A Única Saída, novo lançamento do veterano Park Chan-wook, reconhecido por Oldboy (2003) e A Criada (2016), entre outros.

Nesta adaptação do livro “O Corte”, de Donald E. Westlake, Park Chan-wook adota um estilo mais clássico. Essa escolha chama a atenção na primeira cena, quando uma câmera fluída passeia pelo quintal e pelo interior da casa de Man-su (Lee Byung-hun), num agradável churrasco com a família composta pela esposa Miri (Son Ye-jin) e filhos, o menino Si-one (Woo Seung Kim), fruto do primeiro casamento da mulher, e a menina Ri-one (So Yul Choi). Este trecho conta até com um movimento de grua, que surpreende o público ao subir a visão até o segundo piso da casa e revelar que aquele belo som de violoncelo está sendo tocado pela filha pequena. Nem precisava o protagonista afirmar em voz alta que tem tudo o que deseja para o espectador desconfiar que algo ruim está para quebrar essa harmonia.

E o evento transformador é a demissão de Man-su. Para que o público internacional sinta a dimensão que isso representa na sociedade sul-coreana, o próprio personagem explica que o termo usado no seu país para “demissão” é “degola”, enquanto os americanos chamam-na de “corte”. Por isso, os demitidos até passam por um treinamento in-company para aprenderem a lidar com essa mudança.

Eliminar a concorrência

Após uma revolta inicial, Man-su aceita a nova situação. Enquanto procura por um novo emprego, aproveita o tempo livre para se dedicar ao seu hobby: cuidar de plantas na estufa que construiu em sua casa. Porém, depois de três meses, a sua esposa decreta algumas reduções de gastos necessárias. Além disso, seria necessário vender o imóvel onde moram, o que desespera o protagonista. Então, a partir de um comentário aleatório de Miri, ele toma uma decisão radical: criar uma vaga e eliminar a concorrência.

Esta decisão, que concentra a premissa de A Única Saída, poderia render um filme insano, repleto de mortes, uma diferente da outra, bem no estilo das produções sul-coreanas contemporâneas. Mas, Park Chan-wook não embarca nessa onda. Diminui os alvos a apenas três, afunilamento possível porque Man-su concorre a uma vaga bem específica, e só pretende atacar aqueles que são mais qualificados que ele. A cena que inicia o plano, metaforiza a falência moral do personagem principal, na descida das escadarias da cidade.

O plano efetivo é mais elaborado e minucioso. E, apenas dois candidatos estão na mira de Man-su, o que permite que eles sejam exaustivamente humanizados. As vítimas potenciais são pessoas, com família e sentimentos, e isso aumenta a carga dramática do filme, bem como o dilema moral do protagonista. Até flashbacks entram para enfatizar esse aspecto.

Modelo a ser seguido

Por outro lado, contrastando com a premissa violenta, toques de comédia inserem um pouco de fantasia na história. As situações que envolvem a primeira vítima, um homem que ficou preguiçoso depois da demissão, e que ignora a esposa, uma atriz com muita paixão. O próprio Man-su está engraçado, com suas abordagens desajeitadas e uma ridícula roupa amarela de borracha. No momento da execução, mais humor. Algoz e vítimas discutem em voz alta, mas o som é abafado por uma deslocada música romântica.

O amoralismo do protagonista é desnecessariamente abençoado por uma revelação na parte final em relação às duas vítimas. Mas, sua condenação retorna na cena derradeira, quando ele comemora ao liderar robôs. Ou seja, ele nem se importa que a automatização tenha sido a responsável pela sua própria demissão.

Entre os detalhes que chocam neste filme de Park Chan-wook, o que mais impacta é o pacote que Man-su prepara com o cadáver de uma vítima. Transforma-a num cubo, amarrando as suas extremidades, para que fique mais fácil se livrar do corpo. Em relação à direção em si, o cineasta comprova sua habilidade na composição do quadro, principalmente nos planos gerais. Aproveitando o espaço do quadro para criar emoções e contar a narrativa, ele coloca, por exemplo, um personagem num canto da tela, enquanto outro se aproxima na extremidade oposta, presença que só o público vê.

O cinema de Park Chan-wook foi o modelo para a produção de seu país. Mas, os filmes dos últimos anos perderam essa referência. A ótima repercussão em festivais de A Última Saída talvez sirva para realinhar essa trajetória.  

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Ficha técnica:

A Única Saída | Eojjeolsuga eobsda / No Other Choice | 2025 | 139 min. | Coreia do Sul | Direção: Park Chan-wook | Roteiro: Park Chan-wook, Lee Kyoung-mi, Jahye Lee, Don McKellar | Elenco: Lee Byung-hun, Son Ye-jin, Park Hee-soon, Lee Sung-min, Yeom Hye-ran, Cha Seung-won, Yoo Yeon-seok, Oh Dal-su, Kim Hae-sook, Yoon Ga-yi, Woo Seung Kim, So Yul Choi, Lee Seok-hyeong.

Distribuição: MUBI e Mares Filmes.

Trailer:

Onde assistir:
Lee Byung-hun em "A Única Saída" (divulgação/MUBI)
Lee Byung-hun em "A Única Saída" (divulgação/MUBI)

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