Além das Profundezas (Breaking Surface) não entrega a emoção que deveria emanar de sua premissa. Afinal, a sua trama certamente foi escrita com essa finalidade. Nela, duas irmãs mergulham nas geladas águas de uma região rochosa na Noruega. Mas, uma enorme pedra cai sobre uma delas, que fica presa no fundo do mar. Então, a outra irmã precisa suprir oxigênio dela com os cilindros que elas deixaram na superfície, enquanto tenta pedir ajuda.
O filme constrói duas protagonistas sólidas. Logo na abertura, revela um acontecimento na infância delas que marcou fortemente Ida, a irmã mais velha. Enquanto as duas brincavam no lago em frente à casa delas, a caçula Tuva ficou presa embaixo d’água, e a mãe precisou mergulhar para salvá-la. Depois, acusou Ida de ser a responsável, o que magoou intensamente essa menina que já se sentia menosprezada por ser a filha do primeiro casamento da mãe.
E, mesmo agora, adulta, ela carrega esse trauma. Novamente diante de uma situação similar, ela se sente desesperada para salvar a irmã, o que a leva a cometer muitos erros durante a tentativa de resgate.
Essa ideia, porém, não foi filmada a contento pelo roteirista e diretor Joachim Hedén. Ao se concentrar nas ações de Ida, leva o espectador a se esquecer da irmã que está embaixo da água com o oxigênio acabando rapidamente. A contagem regressiva desse pouco tempo que resta, que poderia potencializar a tensão dramática, é, portanto, desperdiçada. Enquanto Ida corre atrás de uma solução, inclusive se afastando dois quilômetros do local para buscar ajuda em uma casa, o filme não mostra a agonia de Tuva vendo seu ar diminuir.
Noção de espaço
Além disso, Joachin Hedén confunde a noção de espaço do espectador. No trajeto inicial, as duas entram numa passagem submersa, depois param num espaço com respiro, e só depois chegam ao mar aberto onde acontece o acidente. Porém, esse caminho, especialmente a parte submersa, não é mais seguido posteriormente, e em todas as vezes que Ida vai e volta da superfície para o fundo mar ela sobe verticalmente sem passar pelo trajeto que foi apresentado antes. A justificativa pode ser que os dois caminhos são válidos, mas o direto não é recomendável por causa da pressão. Mas, então, nem precisava mostrar o outro.
O problema maior em relação ao espaço, no entanto, se deve ao uso excessivo, e errado, de elipses. Com esse recurso, o diretor elimina alguns trechos que ele acha desnecessário. Como, por exemplo, as duas entrando na água quando chegam ao local. Esse trecho em específico não prejudica a noção espacial, mas as elipses que resumem os trajetos de Ida, tanto dentro da água como na saída para a casa nos arredores, impedem que o público saiba, de fato, quanto tempo ela gasta nessas passagens. É um erro grave, considerando que o elemento tempo é essencial para construir a tensão dessas cenas.
Como resultado, Além das Profundezas poderia ser um suspense de arrepiar, mas é apenas um filme de ação morno.
Este filme gerou a refilmagem alemã Sem Ar (The Dive, 2023), de Maximiliam Erlenwein, que também não fez um bom trabalho de direção.
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Ficha técnica:
Além das Profundezas | Breaking Surface | 2020 | 82 min | Noruega, Suécia, Bélgica | Direção: Joachim Hedén | Roteiro: Joachim Hedén | Elenco: Moa Gammel, Madeleine Martin, Maja Söderström, Irma Hallberg.



