Em As Cores do Tempo, o diretor francês Cédric Klapisch faz um apelo para a valorização da arte. Logo na abertura, a namorada de um dos personagens principais pede para seu namorado Seb (papel de Abraham Wapler) filmar uma coreografia em frente a uma tela de Monet no museu. Para ela, a pintura não passa de um mero pano de fundo decorativo. Por isso, chega até a sugerir mudar as suas cores na edição para ficar do jeito que ela prefere para seu vídeo destinado às redes sociais. Tal absurdo bastaria para Seb perceber que essa namorada não vale nada, a não ser que ele fosse tão fútil como ela. Seb é diferente, mas ele só se dará conta disso a partir da narrativa que o filme propõe.
O rapaz faz parte de uma turma de herdeiros de uma casa no interior que está desabitada desde 1944. Por indicação de seu avô, ele será um dos quatro representantes da família a vistoriar o imóvel e seus pertences, para então todos decidirem o que farão com esses bens. Ao lado dele, que é um criador de conteúdo audiovisual, estão um apicultor, uma engenheira e um professor de francês, respectivamente interpretados por Vincent Macaigne, Julia Piaton e Zinedine Soualem. Juntos, descobrirão que uma tela encontrada na casa é de autoria de Monet.
Passado e presente
A explicação sobre a existência desta obra neste imóvel acontece em paralelo, nas sequências que se passam em 1895. Naquele tempo, a jovem Adèle, de 20 anos, habita esta casa. Até ela partir sozinha para Paris em busca da mãe que nunca conheceu. A atriz que a interpreta é Suzanne Lindon, filha de Vincent Lindon e Sandrine Kiberlain, em sua primeira grande oportunidade no cinema. Nessa jornada, Adèle faz amizade com dois rapazes, os irmãos Anatole e Lucien – papeis de Paul Kircher e Vassili Schneider – que a acolhem no quarto que alugam numa pensão.
Além de encontrar a mãe, Adèle vivencia Paris na Belle Époque. De uma forma um tanto simplista, consegue conhecer figuras notórias como o fotógrafo Félix Nadar, a atriz Sarah Bernhardt e o escritor Victor Hugo. Testemunha a inauguração da iluminação elétrica na Champs-Élysées e vislumbra os primeiros anos pós-inauguração da Torre Eiffel. O filme, nesse sentido, se assemelha a uma carta de amor à capital francesa, sensação estimulada pela coincidência de locações, no passado e no presente, que a estrutura do enredo permite.
O encontro entre os personagens desses dois tempos acontece numa experiência alucinatória provocada por um chá de ayahuasca compartilhado entre os quatro representantes dos herdeiros. Através desse ritual místico, eles conhecem melhor quem foi Adèle Meunier, a ancestral deles que foi a proprietária da casa que eles agora estão avaliando. É mais uma solução simplista da trama – tão simples quanto a aceleração da velocidade do filme para estabelecer a passagem do tempo durante uma conversa entre dois personagens.
Uma saudação a Paris e à arte
Cédric Klapisch, acima de tudo, mantém-se firme no seu discurso pela valorização da arte. A confirmação se dá em paralelo: no passado, Adèle visita o seu pai, Claude Monet, enquanto uma perícia técnica no presente confirma a autoria da pintura encontrada na casa. O herdeiro apicultor sugere que a obra seja doada para algum museu público, mas para isso precisa da aprovação da maioria dos parentes beneficiários. Independentemente do resultado, para Seb a experiência já valeu a pena. Ele descobriu outros familiares além do seu avô, e trocou a sua namorada tiktoker por uma artista musical. Os fechamentos dos arcos dos outros personagens, porém, não estão tão conectados com a arte. Em sua viagem, Adèle ampliou a sua vivência para além dos limites da pequena cidade onde mora – e ainda conheceu seus pais. Os herdeiros, por sua vez, se abrem para outras perspectivas além da sua própria.
Amantes de Paris certamente apreciarão As Cores do Tempo. Os demais espectadores, também, sentir-se-ão bem com a experiência de assistir a este filme agradável e repleto de personagens legais sem muitas dificuldades em suas vidas. Cédric Klapisch construiu sua proposta de revalorização da arte. Mas, essa mensagem fica mais forte na caracterização das namoradas do protagonista Seb, sem abraçar totalmente a trama como um todo. O filme tem um bom começo, cria uma atmosfera aprazível, mas se complica porque se trata de um enredo sem conflitos, e consequentemente, sem o devido impacto dramático.
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Ficha técnica:
As Cores do Tempo | La venue de l’avenir | 2025 | 126 min. | França, Bélgica | Direção: Cédric Klapisch | Roteiro: Cédric Klapisch, Santiago Amigorena | Elenco: Suzanne Lindon, Abraham Wapler, Vincent Macaigne, Julia Piaton, Zinedine Soualem, Paul Kircher, Vassili Schneider.
Distribuição: Imovision.









