Atena, do diretor Caco Souza, coloca Mel Lisboa no papel de uma justiceira. De dia, ela é a dona de uma loja de roupas em Gramado (RS), onde a trama se desenrola. Mas, à noite, ela sai sozinha pelos bares e outros locais da cidade para atrair potenciais estupradores. Dessa forma, ela pode assassinar esses malfeitores, saciando a sua sede de vingança contra autores deste tipo de crime. Porém, o maior alvo de seu ódio é o seu pai, que a estuprava quando ainda era criança e que hoje está escondido sob uma nova identidade.
Essa premissa poderia render uma história tão forte quanto a de Desejo de Matar (Death Wish, 1974), longa de Michael Winner com Charles Bronson no papel do justiceiro vingador. Porém, o filme de Caco Souza, escrito por Enrico Peccin, não desenvolve a construção da protagonista e se perde em situações paralelas que diluem o poder dramático dessa história.
O enredo não segue a ordem cronológica. Parece que a intenção é criar um quebra-cabeças para revelar o trauma que causou o transtorno na assassina em série Atena. Por isso, curtíssimos planos com flashbacks simbólicos (o filme evita mostrar violência contra crianças) aparecem na tela quando a personagem enfrenta uma situação que remete aos abusos que sofria na infância. Em paralelo, surgem trechos (muito mal encenados, por sinal) da rotina de uma família em Montevideu, no Uruguai, onde um velho abusa da filha criança enquanto dopa a esposa com sonífero, ou a coloca em obediência submissa somente com seu olhar. O enigma se soluciona facilmente: esse homem é o pai de Atena, que fugiu do país.
Saudades do direto e brutal
A via do suspense tenta copiar o que funcionou na Trilogia Millennium, do escritor Stieg Larsson. Até o visual de Atena, em uma das suas empreitadas como isca, se parece com o da personagem do livro, Lisbeth Salander, sem nenhuma explicação para se vestir assim. Contudo, o filme não prepara o tom sombrio que esse tema pede, e os eventos se sucedem aleatoriamente, sem se alinhar como pistas para entendermos melhor a protagonista. Ademais, o enredo anula qualquer abordagem psicanalítica a respeito de Atena. Ao invés de buscar a expressão do trauma canalizado para a violência, os realizadores parecem crer que os flashes de memórias do passado são suficientes.
O filme Atena, alternativamente, poderia ser mais direto, como o citado filme com Charles Bronson. Mostrar os eventos traumáticos em primeiro lugar já seria base suficiente para o comportamento violento na fase adulta. De qualquer forma, a procura pelo pai é uma questão que o filme nem aborda. Uma vez atingido esse objetivo, a protagonista continua a seguir com a matança?
O grande confronto entre Atena e o pai é bem frustrante para o espectador. Espera-se uma explosão catártica da protagonista que até então se mostrou violenta contra os estupradores que ela elimina em sua missão de erradicação do mal. Mas, no encontro a vingadora hesita, manda cavar uma cova, mas nem mata e muito menos enterra a sua presa. A montagem, com diversos planos filmados de vários ângulos, desfocados e com a câmera na mão, tenta injetar emoção, mas só produz confusão. No embate corpo a corpo, esse artifício tenta esconder a falta de uma luta coreografada.
Uma estrela num filme sem rumo
O único ponto que se salva em Atena é a presença da atriz Mel Lisboa, que possui o chamado brilho de estrela de cinema. Apesar do roteiro, ela consegue construir uma personagem que chama a atenção. Já todos demais personagens parecem artificiais e dispensáveis para a narrativa. O filme quer também se vestir com a roupagem de denúncia. Assim, revela o descaso no tratamento a abusos contra mulheres, daí a cena na qual uma vítima de violência doméstica não consegue atendimento numa delegacia. E denuncia também que policiais agem por conta própria contra estupradores.
Sem um escopo definido, Atena atira para todos os lados, e não acerta o seu alvo principal, que é ser um filme de justiceiro com uma protagonista feminina.
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Ficha técnica:
Atena | 2023 | 85 min. | Brasil | Direção: Caco Souza | Roteiro: Enrico Peccin | Elenco: Mel Lisboa, Thiago Fragoso, Lui Mendes, Gilberto Gawronski, Bruno Krieger, Luiz Franke, Mari Amaral, Jéssica Nigro, Marcelo Crawshaw, Marcos Verza.
Distribuição: A2 Filmes.



