John Travolta estreia na direção com um projeto muito pessoal chamado Aventuras nas Alturas (Propeller: One-Way Night Coach). O filme, que tem duração de apenas 1 hora, se baseia no livro infantil que o ator lançou em 1997. Expõe os sentimentos de Travolta aos 8 anos, quando ele viajou de avião pela primeira vez em 28/12/1962, com a sua mãe. Para não gastar muito, eles não pegam o voo direto de Nova York a Los Angeles, mas um trecho com várias escalas. A opção mais econômica agradou o pequeno Travolta, que era fanático por aviação e assim poderia passar mais tempo dentro de um avião.
O próprio diretor empresta a sua voz, especialmente amaciada, para a narração muito presente no filme para revelar o que se passa na cabeça desse menino em sua mais feliz experiência até então.
O filme acerta ao não extrapolar o que aconteceu. Apesar do título nacional, nada verdadeiramente aventuroso ocorreu nessa viagem. Mas, na perspectiva infantil do protagonista particularmente emocionado em realizar um dos maiores sonhos de sua vida, até os eventos mais comuns pareceram mágicos. As duas aeromoças que conheceu, por exemplo, para ele eram extraordinárias. A primeira, Liz (papel de Olga Hoffman), por ter escapado do holocausto. A segunda, Doris (interpretada por Ella Bleu Travolta, filha de John Travolta e Kelly Preston), lhe parece a mulher mais linda do mundo. E, por conta da atenção que ela lhe dá, Jeff logo fantasia que ela é sua namorada.
Por outro lado, o frango à Cordon Bleu (o frango frito que Jeff adora, só que melhor, segundo as aeromoças) não o agrada nem um pouco. Essa comida se transforma numa piada recorrente.
Simpático o tempo todo
A produção apresenta cenários que, com certo artificialismo, caracterizam os anos 1960 de imediato, conferindo um charme nostálgico. Completam esse ambiente os costumes da época, como o hábito de fumar até dentro de aviões.
Mas, o que mais chama a atenção é a liberdade sexual de Helen, a mãe de Jeff. Sem se importar com a presença do filho, ela descaradamente flerta com os homens que conhece na viagem, inclusive aqueles casados. Helen tem 49 anos, mas parece bem mais velha, porque a atriz que a interpreta, Kelly Eviston-Quinnett, tem 64 anos. Os paqueras dela, igualmente, aparentam uma idade mais avançada, o que deixa a impressão de que isso foi pensado por John Travolta para caracterizar o ponto de vista da criança, que percebe todos os adultos como pessoas idosas.
A premissa pode levantar a suspeita de que Aventuras nas Alturas seja claustrofóbico e chato. Mas, Travolta evita isso ao não se restringir apenas a cenas dentro de aviões. Um flashback na casa atual, uma breve estadia no hotel, e os saguões dos aeroportos representam variações de cenário. Mais importante que isso, o filme possui um tom agradável, por conta da narração de Travolta e do carisma do jovem ator Clark Shotwell no papel principal. Sem contar que outros membros da família Travolta aparecem na tela além de Ella Bleu, todos retratados com um carinho especial que os tornam adoráveis. São eles os seus irmãos: Ellen (como a passageira avó), Ann (como a vendedora de cachorro-quente), Sam (como o homem da poltrona 12 A) e Joey (como o repórter). Além, claro, do próprio John, numa aparição surpresa.
Gratidão
Na conclusão, a narração expõe fantasiosos desdobramentos futuros dos personagens, que se afastam do que viria a acontecer com John Travolta. Soa como um truque para não se limitar ao autobiográfico. Mas, não importa muito. Aventuras nas Alturas não consegue negar que é um projeto pessoal, repleto de lembranças afetuosas de um batalhador que teve seus altos e baixos e agora agradece a vida que teve.
___________________________________________
Ficha técnica:
Aventuras nas Alturas | Propeller: One-Way Night Coach | 2026 | 61 min. | Estados Unidos | Direção: John Travolta | Roteiro: John Travolta | Elenco: Clark Shotwell, Kelly Eviston-Quinnett, Ella Bleu Travolta, Olga Hoffmann, John Travolta.
Distribuição: Apple TV+ / Apple Original Films.








