A trilogia Batman de Christopher Nolan foi idealizada para ser vista nas grandes telas dos cinemas, com o som mais alto possível. Quem a assiste em casa não usufrui da mesma experiência. Primeiro, porque nem todo mundo – a minoria, na verdade – pode ouvir no volume mais alto, e o elemento sonoro constitui uma das forças dessa produção. E, mesmo quem pode, precisa de um equipamento especial. Cada golpe, os tiros e explosões, a própria voz modificada do super-herói (um pouco exagerada), pedem essa potência. A trilha musical, aliás, tem autoria de dois compositores de superproduções, James Newton Howard e, o mais conhecido, Hans Zimmer, cuja característica épica combina com esse tipo de filme. Curiosamente, apesar desse apelo aberto ao grande público, o filme foi distribuído aqui no Brasil com o título original em inglês, Batman Begins, sem uma tradução, antecipando uma tendência que o streaming assumiria.
Depois do fracasso estrondoso de Batman & Robin (1997), de Joel Schumacher, a Warner Bros e a DC decidiram adotar um tom mais realista (dentro do possível considerando que se trata de um filme de super-herói). Assim, a história de Batman Begins, escrita por David S. Goyer, que adaptou Blade para o cinema, cria uma origem mais consistente para as habilidades de combate do homem-morcego. Aliás, a ligação com esse animal agora vem de um trauma de infância, que Bruce Wayne canaliza para seu alter-ego. Porém, o roteiro mantém o assassinato dos pais de Bruce quando criança como sua motivação para lutar pela Justiça.
A trama
O enredo trabalha melhor os impactos que essa experiência chocante provoca num menino filho de um bilionário, que nada conhecia da violência da decadente Gotham City. O mordomo Alfred assume a sua criação dentro da mansão Wayne. Mas, assim que se torna adulto, Bruce tenta matar o assassino de seus pais. Só não o mata porque um capanga do mafioso Carmine Falcone realiza esse serviço antes.
A maior novidade essa nova história é a viagem de Bruce Wayne pelo mundo para aprender diferentes técnicas de luta. Sua última parada é no Butão, onde Ducard o convida para se juntar à organização criminosa Liga das Sombras. Depois de passar por um árduo treinamento, Bruce descobre que o líder do grupo, Ra’s al Ghal pretende destruir Gotham City, por ser uma cidade irremediavelmente corrupta. Então, Bruce abandona a liga e retorna para casa.
Enquanto finge ser um playboy mimado (o que o afasta de Rachel, a sua amiga de infância e hoje assistente do promotor de justiça), Bruce planeja uma forma de combater o crime em Gotham City. Para isso, conta com a ajuda do inventor Lucius Fox, funcionário das corporações Wayne. Já como Batman, ele enfrenta o corrupto Dr. Jonathan Crane, que age com uma máscara de espantalho usando como arma um spray com uma droga alucinógena. Além disso, Ra’s al Ghal já está em Gotham, e planeja contaminar as águas da cidade com essa substância.
Os personagens
Para um Batman com uma carga dramática tão pesada, a escolha de Christian Bale foi mais que acertada. O ator já provara sua capacidade de interpretar personagens duplos e sombrios em Psicopata Americano (2000), de Mary Harron, no qual viveu um serial killer. Em Batman Begins, Bruce Wayne possui a mesma importância que o Batman. Ao seu redor, outros grandes nomes do elenco dão força ao filme.
Michael Caine incorpora um Alfred paterno, enquanto Morgan Freeman encarna o inabalável gênio tecnológico Lucius Fox (responsável por criar um incrível Batmóvel a partir de um tanque militar). Talvez ninguém reconheça o camaleônico Gary Oldman, mas é ele quem faz o incorruptível Jim Gordon, antes de ser promovido a comissário de polícia. E Katie Holmes traduz perfeitamente a bela jovem, e incansável defensora da Justiça, Rachel Dawes, a agora adulta amiguinha de infância de Bruce. A química entre os dois personagens expressa a paixão que existe entre eles.
Já do lado dos vilões, o filme de Christopher Nolan tem problemas. Primeiro, porque são três: o gangster Carmine Falcone (Tom Wilkinson, sem muita presença), o espantalho Jonathan Crane (Cillian Murphy, magnético) e Ra’s al Ghal (Ken Watanabe), que manda Ducard (Liam Neeson, sempre convincente nas cenas de ação) combater o Batman em Gotham. O mafioso se complica dentro do próprio submundo onde habita, e o espantalho só tem o spray como arma. Enquanto isso, o fato de Ra’s al Ghal não encarar o Batman, mas enviar Ducard soa como uma fraqueza. Na verdade, a ausência de um vilão único e mais poderoso ganha uma explicação no final, como a contrapartida para o surgimento de um super-herói mascarado. Ou seja, se existe um herói em disfarce, por que também não um vilão?
Batman Begins impacta por sua narrativa crua, pela potência visual e sonora das suas cenas de ação. Suas duas sequências seriam ainda melhores.
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Ficha técnica:
Batman Begins | 2005 | 140 min. | EUA, Reino Unido | Direção: Christopher Nolan | Roteiro: Christopher Nolan, David S. Goyer | Elenco: Christian Bale, Michael Caine, Liam Neeson, Katie Holmes, Gary Oldman, Cillian Murphy, Tom Wilkinson, Rutger Hauer, Ken Watanabe, Morgan Freeman, Mark Boone Junior, Linus Roache, Larry Holden, Gerard Murphy, Colin McFarlane.
Distribuição: Warner Bros.



