Lançado originalmente em 6 de janeiro de 1995, Carlota Joaquina, Princesa do Brazil completa 30 anos. Por ocasião da efeméride, o filme retorna aos cinemas em 14 de agosto de 2025, em cópia restaurada em 4K. A produção se tornou o marco da Retomada do Cinema Brasileiro, pois levou 1.260.000 espectadores aos cinemas, onde permaneceu em cartaz após 11 meses, fato revigorante depois do fim da Embrafilme decretado pelo governo Fernando Collor que estagnou a indústria cinematográfica nacional.
Deixando os números de lado, o primeiro longa dirigido pela atriz Carla Camurati transpira a liberdade da redemocratização do Brasil. Encerrados os dogmas da ditadura militar, seu filme, escrito junto com Melanie Dimantas, revê a História do país sob uma perspectiva nunca adotada pelos livros escolares lançados nesse período. Assim, descartando o ufanismo, o enredo desfila os personagens que fundaram o Brasil como eles eram ou provavelmente foram. E, com isso, revela as raízes do caráter brasileiro.
No lugar de heróis, o enredo traz a covardia de Dom João VI (Marco Nanini), que abandona o seu povo e foge de Portugal para o Brasil com medo da invasão de Napoleão Bonaparte. Da mesma forma, Dom Pedro I (Marcos Palmeira), um tremendo mulherengo, decreta a independência do Brasil para o bem de sua imagem junto ao povo, mesmo que desta forma traindo o seu pai.
Conforme imaginado por uma criança
Há uma chave que abre as portas para o tom de fantasia que predomina em Carlota Joaquina, Princesa do Brazil. O filme todo é a versão imaginada por Yolanda, uma menina escocesa de dez anos, contemporânea de Salvador Dali (portanto, no século 20), enquanto o seu tio lhe conta sobre a infanta espanhola que se casou, com os mesmos dez anos, com Dom João VI. Conforme o relato se desenvolve, Yolanda se imagina no papel de Carlota ainda criança (Ludmila Dayer interpreta os dois papéis), e adulta (vivida por Marieta Severo), quando Carlota e Dom João assumem os títulos de príncipe e princesa do Brasil, onde fixam residência.
Portanto, tudo o que aparece na tela são as imagens que vêm à cabeça de uma criança de dez anos. Daí surge o tom teatral e cômico que faz do filme de Carla Camurati uma lição facilmente digerível dos fatos históricos. Curiosamente, sem a pompa das versões dos livros didáticos lançados durante a ditadura militar, essa releitura parece ser um retrato mais próximo do realmente aconteceu. Os comportamentos que hoje soam absurdos, na verdade, não se restringiam a Portugal e nem ao Brasil, mas pertenciam à época (o final do século 18 até meados do século 19) – basta lembrar os sangrentos acontecimentos na época da Revolução Francesa.
Um filme que não envelheceu
Soma-se a essa visão fantasiada o fato de ser um filme de época, elementos que resultam num filme atemporal. A reconstituição, em cenários criativos que compensam a falta de recursos (o filme precisou de seis meses para filmar o equivalente a três semanas, porque era rodado conforme as verbas disponíveis), inclui distintas paletas de cores para cada país onde acontecia a trama. Assim, os tons cinzas predominam em Portugal e os vermelhos na Espanha, enquanto no Brasil explode uma profusão de coloridos.
E, ainda mais por contar com essa atemporalidade, vale muito a pena o público correr aos cinemas para descobrir ou redescobrir esse filme tão importante para a história do cinema brasileiro.
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Ficha técnica:
Carlota Joaquina, Princesa do Brazil | 1995 | 100 min. | Brasil | Direção: Carla Camurati | Roteiro: Carla Camurati, Melanie Dimantas | Elenco: Marieta Severo, Marco Nanini, Ludmila Dayer, Brent Hieatt, Maria Fernanda, Marcos Palmeira, Eliana Fonseca, Norton Nascimento, Beth Goulart, Antonio Abujamra, Bel Kutner, Vera Holtz, Ney Latorraca, Maria Ceiça, Thales Pan Chacon.



