O filme Cyclone se inspira na história de Maria de Lourdes Castro Pontes (1900-1919), escritora que ganhou o apelido de Miss Cyclone dado pelo círculo dos Modernistas. Relacionou-se com Oswald de Andrade, que mantinha um diário coletivo onde Maria de Lourdes, também conhecida como Dayse Castro, registrava os seus escritos. O roteiro de Rita Piffer constrói um relato ficcional livre para pontuar a sua postura feminista muito à frente de seu tempo. Trata-se de um projeto pessoal da atriz Luiza Mariana, que a interpretou no teatro, e assina como uma das produtoras. A direção é de Flavia Castro, que antes fez o sensível filme sobre amadurecimento de uma adolescente Deslembro (2019).
No filme, Dayse escreve peças de teatro para seu amante Heitor Gamba (Eduardo Moscovis) dirigir. Enquanto a peça segue seu processo de preparação, Dayse tenta obter o visto para estudar dramaturgia na França, que é o seu maior sonho. Mas, para isso, precisa apresentar vários documentos que não são exigidos dos requerentes homens. Ela conta com os créditos da peça que Heitor está adaptando, o que pode ser um problema. Porém, outro entrave sério surge. Ela fica grávida e decide abortar. Mas, o que ainda hoje é proibido significava um tabu ainda maior naquela época, inclusive com graves riscos à saúde.
A interpretação de Luiza Mariana é visceral, como era de se esperar pela intimidade que ela desenvolveu com a personagem nos palcos, bem como pela perseverança em levar esse projeto ao cinema. Outros atores do elenco – Eduardo Moscovis, Karine Teles, Luciana Paes, Magali Biff – também estão excelentes. A única exceção é Ricardo Teodoro, um grande intérprete que desta vez não consegue encarnar com força suficiente o chefe machista de Dayse na gráfica onde ela trabalha como tipógrafa.
A direção
Contudo, o maior destaque do filme é a direção de Flavia Castro. Longe de um trabalho burocrático, ela utiliza vários recursos, clássicos ou experimentais, para expressar o que se passa na cabeça de Dayse no complicado período retratado no filme. Isso acontece já nos créditos iniciais, que são repentinamente interrompidos para introduzir detalhes das mãos sujas da protagonista, por conta do seu trabalho na gráfica. O preto e branco confere uma sensação mórbida, que se alinha com o final do filme. As cores aparecem aos poucos, esmaecidas nessa cena, mas depois mais vibrantes para estampar a vivacidade de espírito da protagonista.
Planos detalhes fragmentam a narrativa, enquanto simbolizam o estado mental confuso de Dayse. Determinada a realizar o sonho de estudar na França, ela adota uma atitude indomável, porém sempre freada pelo machismo da sociedade. A imagem que congela durante os planos simboliza perfeitamente essa luta. De fato, simbolismos, metáforas e mensagens visuais compõem a narrativa construída pela direção de Flavia Castro. O enquadramento de Dayse após o aborto, aprisionada na moldura entre as janelas, contrasta com a música francesa que indica que ela está mais perto de seu objetivo. A cena do pesadelo entra no limite do experimental, inclusive com planos invertidos e sons estranhos.
Cyclone, o apelido que ganhou em vida, se encaixa apropriadamente na morte prematura, aos 19 anos, deste turbilhão feminino que agitou o Modernismo em sua rápida, porém devastadora passagem.
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Ficha técnica:
Cyclone | 2025 | 100 min. | Brasil | Direção: Flavia Castro | Roteiro: Rita Piffer | Elenco: Luiza Mariani, Eduardo Moscovis, Karine Teles, Luciana Paes, Magali Biff, Ricardo Teodoro, Helena Albergaria, Rogério Brito.
Distribuição: Bretz Filmes.



