O surpreendente Desconhecidos (Strange Darling) merece ser descoberto. A oportunidade para o público brasileiro se abre nesta semana, pois o filme chega somente agora nos cinemas daqui. Mas, com uma sinopse oficial enganosa, que leva a crer que se trata de um thriller sobre serial killer como tantos outros. Deve fazer parte da estratégia de marketing, pois este é um daqueles filmes que provocam uma experiência mais impactante quando o espectador não sabe de nenhum spoiler.
O enredo, de fato, dá um nó na cabeça do público, principalmente aquele acostumado a apreciar o terror e o suspense. Sua história, fictícia (apesar da abertura alegar ser real), lida com as ideias preconcebidas em relação aos gêneros (masculino e feminino) que induzem a falsas conclusões que são desmentidas conforme o filme avança.
Conduzindo o público
A obra é criação de JT Mollner, que escreveu e dirigiu sozinho o filme, o segundo longa de sua carreira. Antes, fez o pouco visto Criminosos e Anjos (Outlaws and Angels, 2016) – que, por sinal, merece ser avaliado. O resultado de Desconhecidos parece mesmo vir de um autor-diretor. O enredo, embora diferenciado, só ganha força mesmo pela decisão de contá-lo fora da ordem cronológica. Um quebra-cabeças meticulosamente planejado para conduzir o espectador a raciocinar como Mollner deseja. Para, assim, causar um choque maior com a revelação da verdade.
O prólogo, nesse sentido, colabora para incitar o público a deduzir o que não está na tela. Em preto e branco, esse trecho mostra a protagonista interpretada por Willa Fitzgerald (que, por coincidência, está em outra estreia desta semana, Código Alarum) perguntando ao homem (Kyle Gallner), com quem embarca em um encontro casual, se ele é um serial killer. A cena corta repentinamente para o homem em cima dela. A elipse temporal (de uma cena para outra) e espacial (não mostra o que ele está fazendo nela), leva logo à conclusão de que ele a está estrangulando.
Até os créditos iniciais induzem o público. Em um slow motion acentuado, a moça corre num matagal em direção à câmera, ao som de “Love Hurts” interpretada por Z Berg e Keith Carradine. Quando ela se aproxima, é possível ver que sua orelha esquerda está dilacerada.
Num dos primeiros trechos, sob um intenso azul do letreiro de neon do motel, dentro do carro do rapaz, a moça comenta sobre o medo que toda mulher tem de um encontro casual terminar em violência. Diálogo esse que também integra o esquema de influenciar o espectador.
Surpresas que rompem os paradigmas
Numa sequência posterior, ela se revela uma adepta do sadomasoquismo. Isso dá margem para JT Mollner exercitar livremente a dúvida entre o que é fingimento e o que é verdadeiro.
Mas, o filme não trata apenas de iludir o público. Algumas pistas inteligentes levam a conclusões acertadas, como as carnes congeladas espalhadas no quintal. Ou o capítulo dedicado ao casal de idosos (vividos pelos veteranos Ed Begley Jr. e Barbara Hershey), que esclarece, com surpresas, alguns dos fatos anteriormente apresentados.
Além da bela fotografia (de responsabilidade do ator Giovanni Ribisi) e dos figurinos icônicos (o uniforme vermelho da mulher dentro do carro vermelho é marcante) , Desconhecidos apresenta uma direção muito elaborada. Não só pela acertada decupagem em capítulos fora de ordem, mas também pelo uso de outros recursos. Por exemplo, a profundidade de campo, em destaque na cena em que a moça está em primeiro plano preparando a cocaína, e ele em segundo plano na cama. E, no final alongado e martirizante (a cor que desvanece junto com a vida é uma concepção genial), surge a maior revelação que fecha o arco de um personagem chave: o espelho revela o verdadeiro demônio desta história.
No quesito violência, Desconhecidos entra no limite do extremo. Talvez isso afaste parte do público, mas é uma dose adequada para o teor do filme. Se fosse menos agressivo, não atingiria o impacto que pretende em relação a quebrar os paradigmas de gênero dentro do cinema.
Sem dúvida, um dos filmes mais surpreendentes do gênero nos últimos anos.
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Ficha técnica:
Desconhecidos | Strange Darling | 2023 | 97 min. | EUA | Direção: JT Mollner | Roteiro: JT Mollner | Elenco: Willa Fitzgerald, Kyle Gallner, Madisen Beaty, Bianca A. Santos, Steven Michael Quezada, Ed Begley Jr., Barbara Hershey, Denise Grayson, Eugenia Kuzmina.
Distribuição: Paris Filmes.