Devoradores de Estrelas (Project Hail Mary) traz uma provocadora mistura entre hard sci-fi (ficção-científica que procura se basear na ciência) e comédia. Não é muita surpresa, considerando a dupla de diretores do filme. Phil Lord e Christopher Miller transitam não só entre a ação e o humor, mas também entre a animação e o live action. Eles fizeram: Tá Chovendo Hamburguer (Clody with a Chance of Meatballs, 2009), Anjos da Lei (21 Jump Street, 2012), Uma Aventura Lego (The Lego Movie, 2014) e Anjos da Lei 2 (22 Jump Street, 2014).
Leva um pouco de tempo para entender e absorver essa proposta. Na parte inicial, Ryland Grace (Ryan Gosling) desperta de um coma induzido a bordo de uma nave espacial. A situação tem um pouco de drama, porque os outros dois tripulantes não sobreviveram nessa jornada. Grace não se lembra de nada, nem sequer sabe por que está ali. E faz comentários engraçados, além de mostrar que é um grande desastrado. Quem o ajuda a se inteirar, até certo limite, da situação é a inteligência artificial da espaçonave, que se chama Hail Mary. Porém, o protagonista parece atrapalhado demais, e beira a caricatura por se vestir como se estivesse de folga em casa (lembra Jeff Bridges em O Grande Lebowski) e não numa importante missão espacial.
Narrativas paralelas
O roteiro de Drew Goddard, baseado no livro de Andy Weir, traz uma estrutura narrativa que faz um bem danado para o filme. O filme apresenta em paralelo os eventos que colocaram Grace naquela situação. Não se trata de um flashback, pois ele perdeu a memória. No trailer de divulgação, parecia que o enredo seguiria a ordem cronológica. Assim, conheceríamos Grace como um professor superqualificado do ensino médio que é recrutado pela NASA para uma missão para salvar a humanidade diante da iminente destruição do Sol. Portanto, não soava muito empolgante acompanhar o personagem sendo preparado para ir ao espaço.
Mas, a narrativa paralela consegue provocar muitas surpresas e ainda desenvolver os personagens consistentemente. A crise do planeta é mais bem explicada nas cenas que se passam na Terra. Em suma, alguns elementos vistos no telescópio como pontos pretos estão comendo o Sol. Logo que inicia suas pesquisas, Grace descobre que esses pontos estão vivos e conseguem se reproduzir. Apelidados de astrofágicos, eles estão devorando as estrelas do universo. A missão Hail Mary consiste em ir até Tau Ceti, uma estrela ainda intacta, para descobrir o que ela tem de especial para não ser vítima dos astrofágicos.
Já nas cercanias de Tau Ceti, Grace descobre que os pontos estão por ali, mas por algum motivo não estão se alimentando daquela estrela. E que não é o único que precisa impedir essa praga para salvar seu planeta. Outra raça alienígena também enfrenta o mesmo desafio. Bem diferente do que o cinema já mostrou (talvez inspirado pelo Coisa do Quarteto Fantástico), esse ser tem a aparência de uma rocha. Por isso, Grace o chama de Rocky, e os dois precisam se ajudar para atingirem o mesmo objetivo que possuem.
Um filme com muitas surpresas
As duas narrativas trazem muitas novas informações para o enredo. E muitas surpresas, inclusive apresentando outras facetas dos personagens. Nesse sentido, se destaca a cena em que Eva Stratt, a líder do projeto Hail Mary interpretada por Sandra Hüller, canta com um surpreendente talento a música “Sign of the Time”, de Harry Stiles. É o momento mais sentimental do filme, que impacta porque mostra que a durona e racional profissional possui seu lado emotivo. A letra da canção se encaixa perfeitamente na situação dramática do enredo, tanto que a personagem nem consegue cantá-la até o fim. Extra filme, o trecho impressiona porque ninguém sabia que a atriz cantava tão bem.
Nessa altura, o espectador já está totalmente envolvido na história e torcendo pelos personagens. Grace, Eva e até Rocky ultrapassam os limites do roteiro e se tornem concretos, possuidores de qualidades e defeitos. E a ficção-científica com uma perspectiva sombria, por fim, coexiste harmoniosamente com o humor. Extrapola um pouquinho na comédia em um ou outro momento, mas Devoradores de Estrelas supera em muito as expectativas criadas pelo seu material promocional.
Nota: revi o filme em 22/03 e o filme se mostrou ainda melhor. Aumentei a avaliação de 7,5 para 8,0.
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Ficha técnica:
Devoradores de Estrelas | Project Hail Mary | 2026 | EUA | Direção: Phil Lord, Christopher Miller | Roteiro: Drew Goddard, Andy Weir | Elenco: Ryan Gosling, Milana Vayntrub, Sandra Hüller, Ken Leund, Liz Kingsman.
Distribuição: Sony Pictures.



